Roda

Daniela dos Santos

Estava voltando. Era só isso que conseguia dizer. Estava voltando. Se virava pra trás pra ter certeza, só via o que tinha à frente. Só podia querer dizer isso. Voltar. É a única possibilidade de ter a mesma coisa atrás e à frente. Estava aqui, agora volta pra cá. Tudo diferente de só estar aqui, tinha certeza. Tinha certeza de que não estava, só. Estava voltando.

− Aonde você foi? Onde você esteve?

Caminhando de volta, achou divertido imaginar perguntas vindo e sendo respondidas com um sorriso gentil e vitorioso, contando glórias, e maravilhas e novidades. Crescia enquanto pensava em quantos sentiriam a sua falta, quem ficou preocupado, quem ficou feliz por estar voltando. Estava feliz por estar voltando. Só podia querer dizer isso. É a única possibilidade de estar sorrindo daquele jeito tão aberto agora, com um caminho de volta tão aberto à sua frente. O mesmo caminho tão aberto às suas costas.

Estava feliz por voltar! Sim, mas é claro! Começou a se mover mais rápido, bateu os pés, saltou, passou a mão na cabeça, girou sobre o próprio eixo com os braços esticados, abertos, como o caminho que girava a sua volta. Seu caminho de volta.

Parou, os olhos abertos. A sua frente e atrás, o mesmo caminho. Olhou em volta, tudo o mesmo caminho, tudo levava de volta.

− Mas de volta pra onde?

A boca aberta, achou estranho ouvir sua voz saindo tão desesperada de desamparo, com um despreparo confuso e bobo. Tinha se perdido: rodou e perdeu o rumo. Talvez nunca mais se encontrasse; se virava pra trás, só via o que tinha à frente.

− O jeito vai ser voltar.

Sua voz vinha do outro lado; já tinha voltado, se perdido e percebido que teria que voltar.

− O jeito vai ser voltar.

A voz chegou meio fraca, mas só podia ser isso mesmo. Era a única possibilidade de continuar. Só tinha caminho de volta. É isso. Isso! Começou a caminhar.

Estou voltando.


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