Uma estranha no vento

Susana Fuentes

As praças têm alma, e as esquinas. O vento passa em silêncio, rasteiro, mas o pressinto nos cabelos e nas folhas das árvores. Em frente, avante, o vento não pede passagem. Apenas passa, como as nuvens passam. Assim aprendi: não mexo com ele, nem ele comigo, e ele segue, deixa-me viver apenas. Assim também com a dor. Eu passo, vamos ver se ela passa também. Saio com as cores. De braços dados com o marrom de luzes fúnebres e adocicadas. O casaco sai do armário com perfume de muito tempo guardado. O aroma do café fura caminhos no peito para que a alma respire e limpa-me a ruga na testa. Passa o franzido do corpo, sacode as nuvens da toalha e o calafrio dos dentes. Você dorme e respira, e isso basta, até aqui ninguém morre, o coração palpita, posso seguir adiante na cidade só luz.


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