Urbanas Fotografias Humanas

Maurício Melo Júnior

 

Invadiu-lhe uma profunda melancolia. O amigo, o Fotógrafo, ganhara as esferas, deixara a Terra. Por não guardar crenças mesquinhas e inúteis, sabia ser definitivo fim. Nada para doer ou lamentar. Estava de fato, o amigo, na Terra, era Terra de pioneiros. A vida se esvai no sopro comum dos dias, o extraordinário fica na tristeza dos sobreviventes.

Apanhou as fotografias em branco e preto, quatro, amareladas de tempo, as que mais lhe apegavam.

Nascia a cidade.

Recolheu-se às lembranças do último encontro.

Ele estava ali, deitado, encolhido. Quando abriu os olhos e me viu, o seu rosto envelhecido como que se iluminou. Procurou nas bolsas que guardava seu tesouro, algumas fotos, mas o diálogo foi difícil, porque, de parte à parte, se interpunha a consciência de que aquele momento era o da despedida, o do sumiço definitivo.

Voltou às fotografias.

O cerrado bruto e profundo cortado por dois eixos que se cruzam – o próprio sinal da cruz – e demarcam no território ainda vazio todas as possibilidades. Há mistérios escondidos no corte, sob as árvores, ao rés do chão áspero, árido, que afloram, os mistérios, e crescem no descompasso dos troncos, formas disformes e naturais onde brotam frutos amarelados, canela-de-ema, ipê, flores imensas, a caliandra a espetar no céu o vermelho de suas hastes, além do futuro.

Uma imagem, a cruz fincada em prece no solo fértil do cerrado.

Homens e mulheres felizes chegavam trazendo a força do trabalho. Vinham construir uma esperança e pariam a ebulição da cidade inventada, saltada das pranchetas, dos traços. A moça de gestos e formas fortes e sorriso tímido escondia sob a roupa austera o desejo de quase todos os homens. Alguns a olhavam com imensa carga de inveja e apreensão. O alimento momentaneamente esquecido no chão que se adivinha vermelho. Há predominância de uma poeira que penetra a carne, se infiltra pelos poros e cria cumplicidades indissolúveis. E o vento, o redemoinho a girar, girar, girar.

Duas imagens, essa gente jamais partiu.

O povo amontoado na ebulição de uma feira livre. Um riso geral. A esperança germina felicidades, apascenta o futuro. Bacias de alumínio, enormes; panelas de ágata, enormes; tabuleiros fartos de alimentos novos, enormes. Homens e mulheres caminham com passos de quem segue uma dança, a leveza do feliz. Nem o barro vermelho, açoitado pelos redemoinhos apaga o brilho dos olhos.

Três imagens, o alívio dos que fazem a manhã.

Um tempo onde a determinação era constante e a Avenida Monumental somente uma placa fincada no chão do cerrado áspero. Em vestes formais, gravatas e paletós escuros, dois homens examinam as mensagens impressas em folhas imensas de papel. Sabem das revoluções que patrocinam. As árvores retorcidas dando lugar às largas passagens dos automóveis, aos espaços dos edifícios, às estreitas trilhas ladrilhadas dos pedestres. Algumas dessas árvores sobreviverão no Jardim Botânico que se anuncia para uma das margens da ampla avenida, mas nem elas senhores. Falta abundância de água nestes cantos e o Jardim irá se desenhar para muito além dali. Os homens já não têm tempo para as preocupações primárias. Tudo é urgência e pressa apesar da serenidade com que olham o papel aberto ao vento.

Quatro imagens, eles cimentaram o ar.

Já sem páginas, outra imagem se impõe à retina.

Dois homens serenos se olham distantes. O último encontro. O amigo estendido na solidão de uma cama velha de abrigo para velhos, um lar de velhinhos, velharias entorno. A inutilidade dos dias passados no silêncio, na escuridão, sob a luz baça de um abajur modesto, relíquia do tempo. Uma espera e só. Olhava o amigo e seu mundo minúsculo, apequenado, sobras de perdas definitivas, a filha que já não mais reconhecia, a arte um oblívio. Segurava a câmera já tão inútil quanto ele, a camisa aberta aplacando o calor milenar, o peito cavo denunciando a fome ancestral, o abajur.

Com um resto de força, o Fotógrafo remexeu seus perdidos pertences.

O senhor lembra disso?

É uma régua de escala.

Roubei do senhor na Novacap e até hoje guardo de lembrança do senhor.

Voltaram ao silêncio que nem o riso da confissão tinha direito de romper. Olhavam-se respeitosamente, enquanto o Urbanista deixava escamotear pelas vestes os quatro papéis impressos em foto. Carecia de lembranças.

Ele roubou a minha escala, e eu roubei as fotografias dele.

Foi seu último sorriso.

Tudo findo, o amigo, a felicidade, a esperança, restam ele, o Urbanista, as fotografias tingidas de amarelo-tempo, uma cor ocre, além das certezas metalizadas na ida do amigo.

Sequer lágrimas para banhar a tristeza.


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