Terceiro movimento

Paulo Guicheney

A idéia horrorosa, inconcebível de que dentro de uma mulher exista algo a que chamamos trompa. Uma trompa de Brahms? Mahler ou Strauss? Trompas naturais, de válvulas? Oito trompas, dez. Quantas? Dentro de uma mulher há todo um apocalipse de aço, isso sim: as trombetas do apocalipse.

No restaurante, após o concerto, G. sente-se torpe, sujo, mas, por uma boceta, faria qualquer sujeira – inclusive, aceitar o convite para jantar com um médico, um médico com cara de colecionador de pantufas. Nada pode ser mais sujo do que jantar com um médico. Mas toda a vileza do mundo se justifica por uma boceta, todos os crimes, todos os pesadelos, todas as mortes. G. olha para ela e imagina-a inundada de trompas, Bruckner enfiado naquela boceta. Sente um calor novo. Uma curiosidade mórbida em conhecer as entranhas de aço daquela mulher. A mulher do médico colecionador de pantufas. E o idiota ali, do seu lado, fazendo mil elucubrações sobre música. “Eu não entendo nada de música, mas…”, ele lhe diz, como se para G. aquilo fosse alguma novidade. Além do que, ele dissera o clássico “mas…”. Vinha merda. E G. solícito, simpático, escutando todas aquelas mansas ruminações. “Gostei muito de sua sonata de Beethoven, mas…” G. imaginando o cheiro da boceta dela, o formato, a textura. O som que ela faria quando gozasse, o sonoro daquele pequeno inferno. “…eu tenho uma gravação de que gosto muito, e o segundo andamento é mais lento que o seu. Você conhece a versão do…” Lento, extremamente lento. G. faria tudo bem lentamente com ela, cada pedaço, cada buraco, nada ficaria desprovido. “Sim, sim, conheço a versão dele, acho ótimo mais lento, mais lento é ideal”. G., sem desviar os olhos dela, mentia despudoradamente. Ele não tolerava a versão que o pulha defendia. Então, mobilizado por toda a força de sua canalhice, o sorriso dissonante no rosto – seu sorriso sempre dissonante, impossível – perguntou àquela criatura o que eram as trompas de uma mulher. Os olhos do miserável brilharam e ele explicou, em pormenores, discursando, tudo. E G. – os ouvidos mortos para as baboseiras do imbecil – se encostando nas pernas dela, farejando-a, percebendo o formato das mãos, dos seios, imaginando os horrores que faria com ela, por ela, sobre ela, dentro dela: todos os infernos possíveis, pois aquela mulher era uma criatura dada a infernos. E o médico babando, babando. De repente, a primeira atitude correta daquele homem. Após explicar toda aquela idiotice que os açougueiros acreditam ser o corpo, pediu licença. Levantou-se, foi cumprimentar alguns amigos em outra mesa, falar de suas pantufas. Um santo homem. Lentamente, G. esgueira-se, senta-se ao lado da mulher do médico colecionador de pantufas. Olha duro para ela, o corpo grudado ao corpo dela, a boca dentro do ouvido dela: “Estou apaixonado por você, assim”. Isso, para G., significava quero trepar com você, assim. “Quero tocar suas trompas”. Ela ri : “Está louco? Você vai complicar minha vida”. “Eu estou aqui para complicar sua vida”. “Não, de jeito nenhum. Nem pensar!” “Olha, eu quero te ver amanhã. Um café, nada além disso. Nada mais. Quero conversar com você. Você não pode me negar isso”. “Onde?” “Onde você quiser, e puder”. “Às duas?” “Às duas.”


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