Tratado absorto de um ser inadvertido

Isabel Roriz

 

Sento-me agora para começar a fazer algo. Preciso entender o que em mim há de mais sagrado e insuportável. Talvez, entre tais adjetivos, sem querer blasfemar (blasfemando: verbalmente, um não-adjetivo), devesse colocar uma vírgula, já que o insuportável existe dentro de tudo que é sagrado. Neste tratado, neste corpo, neste enfado, certo que sim, mora o cansaço, a angústia, o desprezo, o estado de inércia, o sagrado estado de inércia, princípio para obter, talvez, uma vida de verdade.

O som. Escuto sons o tempo todo, eu os escuto, a maioria do resto, não. Não sabem a diferença entre música e som. Eu, em plena consciência de suas diferenças, cheguei ao estado decidido por mim, como um estado superior, de igualá-los. Há tempos, desde que me percebo, sinto receio em poluir minha inquietude com a dos outros. Não gosto dos outros, seria entregar-me demais, expor-me completamente e inocentemente à absurda inadmissão de um qualquer, capaz de fazer toda a diferença em minha morte. Preciso morrer completamente nua.

O homem colhedor de uvas, que senta para ouvir música em seu novo aparelho de som, o homem incapaz de sonhar. Esses tipos, sempre muito ocupados com o óbvio. O homem que obedece sempre a sua vontade, sem ao menos pensar em contrariar o seu mecanismo, é um homem insignificante e desprezível.

Preciso mesmo martirizar, a tudo e a todos, preciso falar sobre pedras, sobre sons que não são músicas, sobre música. Música, sempre um som. Preciso martirizar o som, destruí-lo, chegar ao ápice de minha loucura particular, e ter a certeza absoluta que encontrei o silêncio. Veja bem, eu já encontrei, encontrei de uma forma tão estranha, sei de sua existência, mas a conclusão que cheguei é a de que eu nunca vou conseguir obtê-lo. Acho louvável essa minha façanha.

Posso falar de pedras, acho que já posso falar de pedras, estou mais morta do que elas. A pedra sendo pedra para o catador de uvas? Dentro daquela paisagem, ele catando uvas perfeitas, o sol e seu sorriso amarelo, as pedras paradas, como se fossem intocáveis. Prefiro o catador de pedras, o escolhedor de pedras, não todas, todas não servem. A coletividade não leva ninguém a lugar nenhum.

Silêncio. Eu e o silêncio, incompatíveis. Eu sei dele, ele sabe de mim, não nos misturamos, somos repulsivos um ao outro. Dentro da minha sagrada inércia, silêncio não me faz casa. Talvez casca. Casa, nunca.

É bem isso, a casca. O silêncio é a casca. Claro, a maioria não passam de casca. Se pegasse um martelo e fosse por aí, distribuindo amor gratuito, teria uma coleção de cactos e o mundo talvez ficasse menos desprovido de beleza. O amor estraga tudo.


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