Amigo secreto

Erwin Maack

Recebi uma carta do asilo em que meu tio viveu seus últimos anos. A dona do lar não cansou de elogiar suas qualidades, seu sorriso sempre aberto, a elegância com que tratava as pessoas, a disposição de ajudar nas tarefas administrativas e tudo mais. A descrição é contrastante com outras que ouvi dele. Lembro de uma história que me contou em nossa última viagem até a tríplice fronteira. A história de uma festa de final de ano na empresa dirigia.
A reunião foi marcada no Clube Hípico da cidade. Como parte das festividades, programou-se uma partida de pólo. Os irmãos proprietários da empresa convidaram um time como adversário. Cada um jogou em uma equipe diferente. Para a confraternização, todos foram convidados, sem exceção. O local é espaçoso, somos recebidos por uma alameda guardada por palmeiras imperiais, bosques, vários campos fechados, simétricos. A casa grande é rústica e sofisticada, alizares azuis enfeitam as janelas, impossibilitando uma má vista, dimensão grandiosa, deixando o observador diminuído diante de tanta fartura.
Em sua maioria, as pessoas não se interessavam pela partida, andavam em volta do campo, aplaudiam quando alguém incentivava, e paravam naturalmente. Um ou outro fazia algum comentário. O interesse maior era o almoço, assado na churrasqueira ou preparado e servido dentro do restaurante, após o término do jogo. A reunião se prolongaria até a noite, com um lanche e a troca dos presentes, colocados sob a árvore de natal, alta, robusta, brilhante, muito mais bem vestida de vermelhos, brilhos, brancos, estrelas e faíscas do que muito espectador. Dava medo de tocá-la e algo se quebrar. O abono de Natal seria insuficiente para o prejuízo. Ela estava isolada, protegida do toque, protegida pela lagoa dos presentes. Melhor olhar e quedar quieto.
A brigada do clube, uniformizada, impecável, cuidava para que tudo corresse bem. Levava as coisas de um lado para o outro, sorria para os presentes, trazia comida e bebida em quantidade. Receberam instruções para não sonegar nada. As senhoras mais velhas sorriam para os meninos e rapazes que cuidavam dos cavalos, detalhavam os músculos e alimentação dos animais, diziam que esta era responsável pela graça e força daqueles, olhando dentro dos olhos do interlocutor. Brejeiros. Sorrateiros.
Segregado da maioria, um contingente ficou ao largo, separada dos outros, como as mulheres nas cerimônias dos dervixes ou nas sinagogas. Parecia reunir as pessoas pelo salário, ele era o que agregava. Um deles – apelidado depois de Mané Codorna – encheu o prato com ovos de codorna, sob a risada dos demais. Afinal queria provar do aperitivo, além de saber se era verdadeiro o benefício indireto. Prato cheio feito pirâmide na mão, Mané descobriu o motivo do riso. Não era só pela quantidade. Ao experimentar o primeiro sentiu uma acidez desconcertante; eram cebolas em conserva. Passou aperto para jogar fora sem que alguém percebesse.
A festa corria solta. O jogo terminou. A roupa justa nas pernas e no corpo provocava comentários dos mais atrevidos. “Olha só gente, rico também sua.” “Eles devem comer também muita aveia.” “Os cavalos daqui não cheiram como eu me lembro, eles também são diferentes.”
Tudo corria bem. Harmonia. Confraternização. Divisão de resultados. Comeu-se muito bem. A grande maioria no churrasco. Muita batida. Pinga pura. Cerveja a rodo. Um convidado francês filosofava no restaurante. “A melhor maneira de lidar com dinheiro inexplicável é comprar diamantes rosa de Argyle com cartões corporativos. Não há como rastrear…” A tarde terminava com o sol se escondendo atrás do bosque sem pressa. O dia esteve perfeito, sem uma nuvem. A noite caia suavemente, como festa de novela. Escureceu. Acendem-se as luzes, os enfeites, os ambientes. Linhas de luz faziam o perímetro dos telhados, desciam pelas paredes, desenhando o local como se estivéssemos fazendo parte de um cartão de natal. A árvore se iluminou majestosa, tomando o seu lugar de honra na festa. As pessoas foram convidadas a se aproximar. “Vamos ouvir o informe dos diretores.” “Vamos gente, vamos chegando.”
Os funcionários da empresa e do clube conversavam lá longe, perto da mata. Juntos aproveitam seu momento de folga. Agora não havia distração, só atenção às palavras dos chefes.
Um clique suave. Tudo escureceu. Não se via um palmo diante do nariz. Escuro. Nada. Alguns pegaram seu celular para ter alguma claridade. Logo em seguida, outros Insetos artificiais circulando. Um corre-corre abafado e rápido para encontrar uma solução, para a pane elétrica. Murmúrios. Logo alguém avisa, parece que é geral. Ninguém tem luz por aqui. Ligaram daqui e dali, nada. Em lugar nenhuma havia eletricidade.
O pessoal do clube viveu um momento inarticulado. Alguns casais se afastaram para os cantos. Tudo foi serenando, principalmente as duplas. Várias possibilidades. Liberdade total. Cavalariços, palafreneiros, estribeiros e funcionários fizeram seus pares com casacas, esporas, rebenques, capacetes, culotes e luvas. Várias vezes. O movimento para lá e para cá não arrefecia. Mas a obscuridade foi se tornando natural, da mesma forma que o barulho contínuo de um alarme. As pessoas se abrigavam ao luar. Fora da alvenaria.
Duas horas depois, cansaço, vontade de ir embora. Muita bebida, calor. Naquele instante, tudo se iluminou, tornando estátuas momentâneas aqueles que rodopiavam livremente. Parados. Congelados. Pegos de surpresa. Aparece uma secretária, rápida e eficaz: “Bem vamos fazer, a revelação do amigo secreto, e depois iremos embora.”
A árvore estava vazia, acesa e tristonha, sem os presentes. Magra, nua e pálida.
Algumas jóias deixadas nos sofás e otomanas desaparecem, bem como algumas carteiras de dinheiro. “O que é que está acontecendo? Como pode sumir assim? Onde estão meus pacotes?” Olhares se cruzando, interrogativos.
Logo chega a equipe anti-incêndio, causando um tumulto, procurando encontrar a origem do acontecimento. Nada. Alguns pacotes de presentes dentro dos bagageiros também sumiram. Ninguém viu nada. A presidência da empresa confabulava com a do clube. Apontaram questões de ordem prática, e para se evitar um escândalo maior, concordaram em dividir os prejuízos. Os prejudicados pela perda dos valores seriam indenizados. A cota do amigo secreto ficaria como prejuízo dos presenteados.
As pessoas se despediram apressadamente, querendo terminar a aglomeração. As férias coletivas absorveriam todos os comentários, as culpas, as atribuições. Ano novo. Vida nova. Tudo será diferente.
Depois da história, contou sobre os benefícios da Fernet Branca para a digestão depois de comer carne; da saudade de falar guarani; da vontade de atravessar o rio a nado, para economizar o dinheiro da passagem; das constantes viagens que fazia, para evitar encontros com a justiça.
Eu, que o havia convidado para rever as imagens do rio, tão bem descritas por Horário Quiroga, fiquei frustrado. Não havia mais toras flutuantes. Acordei no dia seguinte, com o desjejum feito por ele: maçãs cozidas e té.

Uma resposta to “Amigo secreto”

  1. Amigo Secreto @ Non Liquet Says:

    […] última viagem até a tríplice fronteira. A história de uma festa de final de ano na empresa dirigia. Category: Penso? You can follow any responses to this entry via RSS. You can leave a comment or […]

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