Descartável para quem não aprecia detalhes

Daniela Mendes

Nunca mais dependeria de um homem para nada, prometeu para si mesma Ana. O que tem que ser feito vai ser feito, não encomendado. Pegou na mãozinha de Rosário e foi à feira. Não ia deixar de fazer galinha ao molho pardo na ceia só porque era ele que sempre quebrava num estalo o pescoço da bicha. Quer caqui Rosário? Vovó vai comprar para você. Moço, essa galinha tá quanto? É, parece boa. E juntou a bicha pelas patas com sacola e tudo, inventando indiferença. Já te contei que eu era uma Icamiaba, meu amor? É. Isso mesmo. Eu era um tipo de índia. Na minha tribo nós éramos todas loiras e não existiam homens lá. Passávamos os dias lendo livros, brincando de cinco marias, cozinhando puxa-puxa e fazendo crochê. Também sabíamos lutar e minha mãe já matou um urso com um bodoque, certa vez. Não. Não posso te levar lá. Não sei como chegar. Seu avô me raptou e me trouxe pra cá de olhos vendados quando eu era pequena. Por isso que é importante saber geografia, viu? Repete o seu endereço para vovó ver se você sabe. A galinha? Ia comer sim, ué. Não, com pena não. Tirava. Água quente fazia a pena cair todinha. E se tiver pintinho dentro? Galinha não tem pintinho na barriga, só ovo. Ah, lembrou né?

Estava um dia de muito sol. Quer água? Que tal uma garapa? Vamos lá. A neta era como ela. Gostava de ficar olhando a rua sem nada falar. Ficaram quietinhas escutando os muitos assuntos perto da barraca de caldo de cana enquanto se refrescavam com o açúcar. E a galinha amarrada pontuando tudo: óóóóóó óóó có ó óóóóóó…

Duas meninas de patins pararam perto do carrinho cheias de risos. Estavam com pouca roupa. Ana assava no luto! Vestido preto, um horror no verão. Chamou atenção de Rosário com uma cotovelada, era de pequena que ensinava ser assanhada pra depois não ficar boba. O caldo de cana quase derramou. Por que você não pede um patins de Natal? Ainda dá tempo. Rosário lhe devolveu uma careta com o rosto melado de cana e poeira fina. Queria voltar ao assunto da galinha. Não falava de pena de voar… Falava de pena de dó. Refez a pergunta para a avó; se ela não tinha dó da galinha.

Ana ficou em silêncio por um momento pensando na resposta. Não. Ela nasceu para aquilo, uai! E teve chance de mudar seu destino? A menina não perguntou aquilo, mas a avó tentava responder com justiça. E galinha tem lá chance de ser outra coisa que não galinha? Não. Ou ela não tem porque prendem ela no galinheiro? Ana até sentia certa culpa. Rosário perguntou então: existia galinha do mato? Olha, você quer saber? Eu morro de pena. Mas não posso ficar pensando nisso se não o almoço não sai. Ela não sofre nadica de nada. É só matar de uma vez… Anda logo com isso, não posso ficar à toa o dia todo.

Agora aumentava a ansiedade de Ana.

Uma vez sua mãe foi ensiná-la matar galinha. Ficou um tempão só treinando a filha o lugar melhor de segurar. Explicou para não ter pena porque se ficasse com esse pensamento não mataria direito o animal e aí sim isso seria judiação. Ana se concentrou bastante. Primeiro ficou alisando o pescoço como um bastão cheio de plumas, avaliou a fragilidade da bicha, pediu perdão a Deus e…

Ainda não.

A mãe tornou explicar. Presta atenção! O lugar certo é aqui. Disse aproximando o facão e a vasilha para escorrer o sangue. Tem que fazer assim e… Pum! Cabou-se a vida. O nome da galinha era Quitéria, meiga e gorda feito uma almofadinha com cabeça. Os olhos do bicho quando pressente a morte… Não se pode olhar, dizem que é o único momento em que ele tem consciência. Diz que uma galinha antes de morrer tem uma fração de inteligência e que esta é tão forte que nem a maior biblioteca do mundo poderia conter o segredo que há nela. E então a galinha já tinha visto a verdade de Ana?

Vai menina!

Ana fechou os olhos e…

foi. Não fez creque. Quitéria deu um berro agonizante e saiu andando desorientada com a cabeça morta dependurada. A mãe ficou brava. “Olha o que você fez menina!”.

A esta altura dos fatos presentes, Ana inventava para neta como de costume: disse que aprendeu a matar depois de ter pesadelos com a galinha descabeçada. Ela matava tão bem que as bichinhas nem tinham tempo de ter o instante de consciência.

Pura mentira.

Nunca mais matou galinha nenhuma. Sempre era o marido. Mas Ana tinha estas coisas. Quando era menina tinha aquela coisa brejeira de roça. Quando era mulher tinha aquela coisa sofisticada. Quando era mãe tinha aquela coisa sacerdotisa. Quando era avó tinha umas coisas malucas para as netas nunca se esquecerem dela. Rosário nem desconfiava que a avó estivesse envolvida em um novo aprendizado depois de tanto tempo… E o que se faz com a cabeça depois que a bichinha morre? Canja! Mas prefiro jogar fora. Vamos andando? O assunto deixava Ana aflita.

A menina concordou sem dizer palavra. Foi caminhando um pouco atrasada em relação à avó. Como a bolsa e o animal pesavam, Ana pediu para que ela andasse mais depressa…

Deixa eu carregar ela, Vó. Você não tem medo que a galinha te dê beliscões? Ela tá amarrada no pé… Ana até ficou orgulhosa com a personalidade da neta e, por isso, concordou com a proposta. Estavam já chegando mesmo em casa. Eu vou correndo na frente e já volto pra te ajudar, bisqüi. Fez um trato com a neta.

Tão logo se livrou do peso dos quilos de legumes e frutas na cozinha, Ana voltou correndo por onde viera para socorrer Rosário.

Quando chegou à segunda esquina, viu Rosário andando de costas, riscando na calçada, com a cabeça da galinha, um rastro de sangue. Assim, desse jeito, como se aquele amontoado de penas fosse um pincel.

Ana ficou petrificada ao ver a cena. Rosário teve medo dos olhos arregalados da avó e os encheu d’água pensando que ia apanhar ou algo assim. Mas tudo que escutou foi: acho melhor você não contar nada disso para sua mãe. Que tal se a gente comer um suflê de couve-flor com presunto na ceia, hein?

Anúncios

Uma resposta to “Descartável para quem não aprecia detalhes”

  1. Histórias Possíveis – Edição de Natal « Diários da Cataluña Says:

    […] Daniela Mendes, Descartável para quem não aprecia detalhes […]

Comentários encerrados.


%d blogueiros gostam disto: