Dia Seguinte

Daniela dos Santos

Vamos agora, então. Na cara dele o eco do “ontem não dava, conversa!” Pelo menos ele não perguntou se ela não queria. Talvez se perguntasse ela teria coragem de dizer.
Mas ele não perguntou e ela foi logo abrindo as pernas.
Vamos logo, sua mãe já deve estar vindo!
Não entendeu, a princípio. Ela já estava abrindo as pernas, ele que fizesse o trabalho de entrar, agora! Ia abrindo a boca, também, mas lembrou que realmente ela prometeu, achou até graça antes, bem econômico, aliás (ria na farmácia pensado se isso é lugar de comprar presente, riu mais ainda quando viu filas em todas as outras lojas, quase – até no 1,99!), só que ela sabia que pra ela não teria graça nenhuma. É, ela já sabia. Mas e daí, com o MP3 seria a mesma coisa, só que mais caro.
Respira e vai!
Abriu mais, afastou a calcinha e ficou meio deitada, com as pernas arriadas. Ele chegou rindo com aquela boca de mala na hora do sexo.
Frango assado de natal!
Ela quis xingar, mas chamaria a atenção da mãe. Estava ali ao lado, na cozinha, esquentando a sobra do Natal. Já era bem perigoso. Quero você, na sua casa, na noite de Natal. Claro que queria na casa dela. Lá, se fossem pegos, seria ela quem suportaria os olhares por meses. Eles continuariam namorando, ele continuaria indo à casa dela, a mãe faria pra ele sempre aquela cara de visita, pareceria sempre atenta e preocupada, estando sempre trancada por dentro.
Até se tivesse sido ontem, se a mãe tivesse ficado sabendo, pra ele continuaria igual: a mãe com aquele sorriso de plástico oferecendo um café e perguntando da oficina.
Não dava pra ter sido ontem.
Pelo menos não vou comer só requentado.
Mas assado, certamente. Seca, seca! Mas como poderia ser diferente? Uma entrada bruta e cinco minutos esfregando não davam em nada além de ardência.
“As mulheres reclamam que não têm orgasmos, mas esperem que ele chegue sozinho.”
Estava muito arrependida de ter lido essa frase na revista. De tanta raiva, nem lembrava quem havia dito (logo ela, que gostava tanto de citações). Agora era obrigada a contribuir em toda relação sexual sem nexo nem futuro, nessa em curso agora. Não poderia mais desempenhar seu papel de porta-buceta com tranqüilidade.
Daiane?
Oi, mãe. Tentou fazer uma voz boa, mas sabia que não tinha dado certo. O Wellinton estava fazendo peso sobre o abdômen, a voz saiu fraca, cheia daquele xingamento por causa do frango assado. Sabe cadê o pano do forno?
Se dissesse que não, a mãe iria até a sala pra dizer que foi ela quem usou da última vez, que tinha que lembrar, Daiane! Quando ela chegasse, o Wellinton já teria gozado, mas estaria com o pinto duro e pingando fora da calça, ainda.
Virou o rosto pro lado da cozinha, afastou o cabelo dele que estava na boca dela e falou, paralelo à cara torcida de perigo e pressa. Na prateleira em cima da pia. E se afastou um pouco pra direita, já sabendo que ele viria caindo meio devagar até sentar ao lado dela, como se o que acabou de acontecer tivesse sido maravilhoso.
Engoliu esse pensamento bem a tempo de olhar nos olhos dele e dizer Feliz Natal, amor.

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Uma resposta to “Dia Seguinte”

  1. Histórias Possíveis – Edição de Natal « Diários da Cataluña Says:

    […] Daniela dos Santos, Dia Seguinte […]

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