História do Natal

Lúcia Bettencourt

E como fosse Natal, outra vez a família se reuniu. À mesa, todos mais ou menos arrumados, ostentando felicidade. O patriarca distribuía as bebidas, cioso de sua missão:

–     Para Betina, uma água com bolinhas!

A menina riu, mostrando a falha nos dentes da frente, de que se orgulhava. Ela estava crescendo antes dos primos, e se sentia quase adulta, trocando os dentes e capaz de suportar a estranheza da água mineral.

–      Para Eduardo, um mate natural! E para o Guga, uma coca-cola…

–      Papai! – atalhou Isabel, – Você sabe que ele não pode tomar refrigerante!– e tomou o copo antes que chegasse às mãos da criança, com tanto ímpeto que derramou um pouco do líquido sobre a toalha branca.

O pai sorriu com doçura, tomou o copo de volta das mãos da filha e insistiu:

–      Só hoje. Ele gosta.

A mesa ficou em silêncio, esperando a decisão do impasse. A filha não concordou.

–      Não, papai. Ele não pode.

Ninguém se lembrou de limpar a coca cola, que manchou para sempre a toalha festiva.

***

E, como fosse Natal, outra vez a família se reuniu.

Isabel olhou a mancha na toalha, e lembrou-se do passado. À mesa, as ausências eram mais marcantes que as presenças. Betina, de aparelho nos dentes e fones de ouvido, tentava ignorar os primos e o que ela considerava suas “infantilidades”. Ninguém servia as bebidas, que estavam dispostas numa mesa lateral. Os pratos também tinham sido colocados num buffet, e cada qual se servia, à sua vontade.

–    Eduardo! Não exagere assim nas rabanadas!

O menino protestou:

–      É só no Natal! E é tão bom!

Isabel sorriu, complacente, e fingiu não se importar com as três fatias de rabanadas empilhadas no prato do menino. Procurou Guga, com o olhar, e viu que o rapazinho, tentava puxar o fone de ouvido da prima. Depois de breve escaramuça, ele desistiu e, resolveu pegar a garrafa de vinho tinto e ir oferecer aos adultos. Preocupada, a mãe alertou:

–      Cuidado com a toalha, para não manchar.

Mas era tarde demais. O menino impetuoso encheu demais a taça que transbordou e deixou uma mancha em forma de sorriso ao seu redor.

***

E, como fosse Natal, era época de tirar a toalha, gasta, do baú de roupas finas.

Ao esticá-la sobre a mesa, Guga olhou com carinho as manchas cada vez mais evidentes.  Rosa reclamou:

–      Por que é que temos de usar essa toalha velha, todo Natal? Está cheia de manchas!

Guga sorriu, docemente, e deu de ombros. Betina, da cadeira onde amamentava a primeira filha, ironizou:

–      Sentimentalismos… a especialidade do Guga!

–      Praticidade – defendeu-o Eduardo. – Para que sujar uma toalha nova?

Guga continuou sorrindo, olhando o irmão e a prima. Nos traços de uns e outros julgava surpreender pequenas semelhanças do avô e da mãe. Mas era na toalha que eles tinham deixado suas marcas, para serem lidas e, depois, esquecidas.

Uma resposta to “História do Natal”

  1. Histórias Possíveis – Edição de Natal « Diários da Cataluña Says:

    […] Lúcia Bettencourt, História do Natal […]

Os comentários estão desativados.


%d blogueiros gostam disto: