Natal clandestino

Susana Fuentes

Dentro do ônibus, Alice viu nas pequenas baratas o anúncio do verão. E pela janela escancarada viu nos monocórdios enfeites das calçadas o anúncio do Natal. Estava sem forças para mover-se no calor. Mas ter a coragem de sair de casa e tomar o ônibus para encontrar os amigos no bar em Ipanema era um ato heróico, e isso lhe devolveu o estado de alerta. Começou a interessar-se pelas pessoas no trajeto, parece que todos saem às ruas, pensou. Foi tomada de surpresa pela música. Não está muito cedo para se desejar feliz Natal? O coro na sacada de uma loja cantava com fôlego sob os gorros vermelhos. Impressionada com o público significativo, olhou para a mulher sentada à sua frente que se virou com ânimo excessivo:

– Eles fazem isso todo ano!

O ônibus venceu o trânsito e passou ao longo do amontoado de gente na esquina da loja. A mulher completou, ainda:

– É tão bonito!

Alice já ia soltar um sorriso amarelo, quando o sorriso abriu-se largo pela visão que lhe lavou a alma: no meio do círculo de gente, virado não para o coro mas para a platéia, cantava e sacudia o corpo, cabeça, braços e ombros, um maltrapilho. Ele ouvia a música e dançava, era o líder da banda, de boca aberta sorria, ninguém sabia, mas o show era ele. Alice viu a alegria naquele rosto impróprio, é tão bonito! repetiu, mas não entendeu como só ela o via, porque a mulher continuou com os olhos no coro e na neve linda de espuma ou isopor que caía incessantemente no rosto anônimo flamejante. Ninguém queria saber, mas o show, Alice sabia, era dele.

Uma resposta to “Natal clandestino”

  1. Histórias Possíveis – Edição de Natal « Diários da Cataluña Says:

    […] Susana Fuentes, Natal clandestino […]

Os comentários estão desativados.


%d blogueiros gostam disto: