Noel

André de Leones

A primeira coisa que perguntaram a ele foi você gosta de crianças, ao que ele respondeu a verdade, não gosto muito, não, mas o entrevistador não estava prestando atenção e a conversa prosseguiu. Não é um trabalho difícil, ou melhor, é, um pouco, você tem que ficar sentado ali um tempão e as mães vão trazendo as crianças, uma encheção que não acaba mais. Eu sei como funciona, ele interrompeu, todo mundo sabe. O rapaz sorriu, todo mundo sabe, pois é, e ele foi empregado. Outro rapaz o levou até uma pequena sala cheia de caixas de papelão e ele experimentou a roupa. Vai precisar colocar uma almofada aí, disse o rapaz, apontando para a barriga. Em casa, ele contou a novidade para a esposa. Ela cozinhou uma costela e fez arroz e salada e eles jantaram assistindo à telenovela. Eles podem me querer lá, disse quando já estavam na cama. Como assim, homem? Natal é só no final do ano. Vão querer um Papai Noel o ano inteiro? Não, não é isso. Pode ser que arrumem outra coisa pra eu fazer. Tipo o quê? Segurança, faxina, sei lá. Eu não conto com isso, não. No escuro, ele mordeu os lábios, foi o que eles disseram, por que iam dizer uma coisa dessas se não fosse verdade. A mulher suspirou, homem, o seu maior defeito é ser ingênuo, mais ingênuo que teus netos, valha-me. Uma cotovelada no rosto, mas se segurou. Preferiu perguntar o que perguntava sempre, por que não some daqui, então, mulher, se eu sou isso daí que você fica dizendo. Ela não respondeu, não saberia dizer por que não sumia dali, e os dois ficaram ali no escuro, fitando o teto com uma raiva que não sabiam de onde vinha. Na manhã seguinte, ela estava arrependida e pensou em pedir desculpas, mas ele reclamou do café, doce demais, e ela se arrependeu de ter se arrependido. Sentados à pequena mesa da cozinha, mastigando pedaços de pão, ela em silêncio rezava para que ele não fizesse nenhuma bobagem, gênio dos infernos, e ele em silêncio rezava para que o telefone tocasse, um dos filhos, qualquer um, a gente chega no dia 24, à tarde, pode deixar que a gente leva tudo, só pede pra mãe fazer um arroz. Sentindo muita pena de si, colocou a xícara suja de café dentro da pia e saiu sem dizer tchau. No shopping, na pequena sala cheia de caixas, ele vestiu o uniforme de trabalho. Quando se preparava para sair, um rapaz, o mesmo que estivera ali com ele, no dia anterior, entrou e, sorrindo, entregou-lhe uma almofada. Teve alguma dificuldade para encaixá-la, o cinto insistindo em escorregar. Lá fora, uma fila de crianças o esperava, mãos dadas com suas mães, tias, avós. Por sorte, a enorme barba postiça escondia a sua boca: não precisava sorrir.

Uma resposta to “Noel”

  1. Histórias Possíveis – Edição de Natal « Diários da Cataluña Says:

    […] André de Leones, Noel […]

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