O Papai Noel que sabia demais

Leandro Resende

4.
O movimento de pessoas estava acima normal. O mundo coloridos com bolas, estrelas de vários tamanhos e piscas-piscas davam a entender que os dias seguintes seriam muito melhores ou que se esperava a chegada de alguém. Carros brigavam por vagas no estacionamento, pessoas desciam aos batalhões dos ônibus, vozes viajavam nos corredores – oscilando entre cochichos de adultos e gritos infantis.
“Olha lá o Papai Noellllll”
Na área central, um homem de terno olha atentamente os movimentos daquele senhor de 63 anos. Ficava a postos, entre atacá-lo e se disfarçar. Vez ou outra ligava o rádio. “A situação continua a mesma. Posição um. Câmbio.” Logo ouvia: “Posição dois, na espera de orientações. Nada anormal. Câmbio, desligo.”
Mas sargento Vasco, o Papai Noel, sabia que algo estava errado. Passou a suar há três dias – mesmo com o ar condicionado do shopping ligado. Sabia-se observado. Não conseguia enxergar tão bem (astigmatismo e miopia nos dois olhos), mas sentia. Suar não era um bom sinal, era um sensor que o avisava que algo estava errado. Ouvia ao fundo o sinal do rádio. Pediu ao pipoqueiro que observasse ao redor. Este lhe informou que os seguranças do shopping estavam por perto nos últimos dias e usavam rádios. Talvez em razão do maior movimento, ponderou. Pressentia que não eram seguranças do shopping.
Vasco pensou em não ir trabalhar nestes últimos dois dias. Estava endividado, precisava da grana. Seu sorriso estava perdendo o brilho, as crianças percebiam que o Papai Noel estava tenso. O sorriso era tenso. Mal sabiam todos que por baixo das largas calças, amarrados nas panturrilhas, aquele senhor trazia quatro dinamites. No pulso, colado, um dispositivo, que apertado por cinco segundos detonaria os explosivos e jogaria longe tudo que estivesse ao redor. “Não vou ser preso nessa idade.”

3.
Na primeira fileira, eram três senhores. Na segunda, mais quatro. No fundo da sala, dois mais jovens. Todos já haviam passado por uma seleção entre mais de quatrocentos e oitenta candidatos a Papai Noel. Todos seriam contratados, o que se discutia ali era para onde cada um seria enviado. Mas, de todos, Vasco, o mais ativo da primeira fileira, era um exemplar raro. O olhar carregava frases gentis e faziam seu silêncio encantar. Era alguém que tinha algo escondido mesmo se dissesse tudo que trazia no pensamento. Nunca sairia toda luz que guardava, pois seu olhar era inacabado, a cada segundo o brilho se renovava. A barba longa e verdadeira, a obesidade destacada, os cabelos brancos eram também fatores que o diferenciava a cada seleção. Logo o definiram novamente como o escolhido para o principal shopping da cidade, na área central. Os demais iriam ganhar a metade, trabalhando em lojas de rua, muito em pé, com megafone ou convidando os clientes a entrarem nas lojas.

2.
“Alô, boa tarde. Eu quero fazer uma denúncia anônima.”
“Sim, senhor. Pode dizer. Estou gravando, sua identidade será preservada.”
“Eu tenho informações importantes. Eu sei onde está um foragido da Justiça que tem vários crimes nas costas. Ele é um ex-sargento do exército. Em 1969, esteve envolvido em torturas e mortes de estudantes e jornalistas. Ajudava na coordenação da equipe de repressão e informação na capital paulista. Fazia próprio gostava de fazer o trabalho sujo da tortura. Tinha prazer em agredir. Era admirado pelos demais torturadores. Quando acabou a ditadura militar, ele denunciou o regime. Trabalhei com ele, foi vacilo. Ele precipitou porque queria pressionar para ser promovido. Foi expulso e a denúncia não saiu na imprensa. Os militares conseguiram segurar porque o dono do jornal ganhou por fora. Ou seja, ele não recebeu nada do jornal, nem a notícia saiu, e passou a ser perseguido pelo exército. Como não arrumou emprego, passou para o lado do crime. Orientava e treinava bandidos nos morros. Ganhou um pouco de grana, mas foi expulso do morro porque ficou visado demais. Era procurado pela polícia por vários crimes na favela e, mesmo no exército, existe uma intenção de calá-lo – pois ele sabe muito. Agora está velho, mas, estou denunciando porque ele sabe muito. Sabe as sujeiras do exército, da polícia, dos juízes e do tráfico. Ele vive se escondendo. Mas, atualmente, está trabalhando como Papai Noel no shopping…”

1.
“Câmbio. Ele tem algo nas pernas. Não sei dizer bem o quê.”
“Ainda não temos mandado judicial para prendê-lo. Só o faça em situação limite.”
Minutos depois e alguns movimentos estranhos do sargento Vasco, os dois policiais se aproximaram. Aproveitaram a redução do movimento e deram voz de prisão. Sargento Vasco colocou a mão no pulso e apertou o dispositivo.
UM. DOIS. TRÊS. QUA… Soltou o dispositivo quando percebeu que duas criancinhas vinham correndo a seu encontro com os braços abertos e sorrindo. Aquela imagem ficou na sua cabeça e coração por uns três anos, até morrer na penitenciária – antes mesmo do seu julgamento final.

Uma resposta to “O Papai Noel que sabia demais”

  1. Histórias Possíveis – Edição de Natal « Diários da Cataluña Says:

    […] Leandro Resende, O Papai Noel que sabia demais […]

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