Um cochilo depois do jantar

Gerusa Leal

Quando parava o que estava fazendo, percebia o quanto o apartamento era grande e silencioso àquela hora da tarde. Boa parte da arrumação já estava terminada. Encaixou Autran Dourado entre Augusto dos Anjos e Balzac e imaginou o que pensariam os autores, das improváveis companhias a que a vizinhança os obrigava. Depois ajoelhou no chão e acabou de organizar a prateleira de baixo da última estante. O marido entrava, sentava do lado e começava a pegar um livro, depois outro, depois outro e ao devolvê-los ia trocando as posições. Até que ela, com fingida raiva, atirava nele o exemplar que ainda tivesse nas mãos para fazê-lo parar. Ele saltava, se esquivando, roubava-lhe os que ainda não haviam sido recolocados, ela interrompia a tarefa e ia curtir o companheiro.

E o mundo continuava a girar, independente dela. Queria dançar. Colocou o CD, e ao som de don’t let me be misunderstood deixou que o Santa Esmeralda conduzisse braços, pernas, cabeça, o corpo inteiro em coreografias improvisadas onde só o que importava era se mexer no ritmo da música. A filha e as amigas chegavam, ela congelava a performance, disfarçava, passava a mão por cima de um móvel para conferir se não havia poeira depositada.

Amanhã a poeira voltaria a se depositar, feito todos os dias. Mas não importava. Não a incomodaria mais. O telefone tocou. Desligou o som e foi atender. Era a filha. Para desejar que a noite fosse de paz. A filha sempre teve a arte de conseguir inibi-la quando estava fazendo algo prazeroso. Tinha um sexto sentido para isso. Guardou o CD e acabou de colocar o último livro na prateleira.

Não havia pena, nem raiva. Queria tudo perfeito. Forrou a toalha branca, pôs o prato, o talher, a taça, o arranjo de flores. Viu a agenda aberta sobre a mesa de centro, nenhum compromisso anotado para o dia seguinte. Fechou, colocou a caneta ao lado. Passou na cozinha, conferiu o assado, foi para o chuveiro.

O órgão tocava o oratório de Natal de Bach. Ainda conseguiu lugar, mas nas últimas filas. Não fazia mal. A acústica da igreja era excelente. Mergulhou naquele oceano de sons, vibrações, odor de incenso e de cera derretida em pingos que escorriam feito lágrimas, numa solidão congelada de parafina. Lembrou que não havia trocado o lençol da cama. Deixou para lá. Talvez ninguém passasse da sala mesmo. Pelo menos nas primeiras horas.

Degustava o tender saboreando o contraste do salgado da carne e o agridoce do molho com cereja. O vinho aquecia por dentro. A luz das velas era suave e oscilante. Feito a da televisão no escuro da sala.

Checou mais uma vez a gaveta dos documentos, todos os importantes estavam ali. Não queria dificultar a vida de ninguém. Sentou no sofá e começou a ver o especial, recostada nas almofadas.

A faxineira ligou para a filha da patroa. Não era notícia que ninguém gostasse de dar, principalmente numa manhã de Natal. Mas o que é que ela podia fazer? Pelo menos a patroa já estava no seu melhor vestido, o par de sapatos preferido, bem penteada e maquiada. Ela nunca havia gostado de dar trabalho a ninguém.

Era um bom emprego, ia sentir falta. Da patroa também, é claro.

Uma resposta to “Um cochilo depois do jantar”

  1. Histórias Possíveis – Edição de Natal « Diários da Cataluña Says:

    […] Gerusa Leal, Um cochilo depois do jantar […]

Os comentários estão desativados.


%d blogueiros gostam disto: