Artur Alves Reis

Erwin Maack

Com esta flor um futuro está morto.
Jorge Luis Borges

 

Viveu, bem vividos, noventa e oito anos.  “Português da gema”, como gostava de dizer, dando um acento carioca à origem e denunciando seu apaixonado gosto pelo pastel de Santa Clara. Viajado e de bom humor constante e contido. Sempre creditava o espírito ao seu corpo, pois bem formado, quase atlético, apesar de não muito alto e de ombros largos.  Odiava camarão e, de uma maneira geral, esportes, principalmente aqueles que nos iludiam, dando alguma impressão de controle. Nariz aquilino, rosto quadrado, boca sem lábios. Cabelos ralos, olhos meigos. Reunia seus amigos para jogar mahjong, que aprendera em Macau e tratava de difundir entre seus parceiros. Gostava também dos dados. Ele mesmo fizera com ossos o seu par de pontas arredondadas. Era um homem prático, sempre com uma atitude positiva, com múltiplas habilidades: marceneiro, bombeiro, jardineiro, artesão, palhaço, mágico, tropeiro, pescador de pérolas, domador de elefantes, madeireiro e crupiê. Hábil transformador de formas, recolhia objetos jogados fora e os transformava em artigos de rara beleza. Apresentava-se como preguiçoso profissional. Livre e independente de espírito; irritava-se com qualquer conclusão lógica: “Redução frívola”. Gostava de sentir o tempo parado, sem passado, nem futuro. Apenas existia. Diziam que seu tio fora responsável pelo maior abalo em Portugal, depois do terremoto que devastou Lisboa em 1755. Ele se orgulhava de Fernando Pessoa acompanhar o julgamento, anotando tudo cuidadosamente. Cuidava de uma cadela, Lindinha, e de uma gata, Sultana. Abandonados, temiam pegar o alimento de suas mãos. Ele os colocava em terrinas e os deixava em paz.  Foi escolhido por Sultana. Ela quedava a maior parte do dia na casa, enroscada entre suas pernas.  Lindinha não se rendia, continuava esquiva, apenas comparecia no horário, desconfiada, olhos irrequietos, orelhas ligadas.

Certo dia, no horário do almoço, apareceu uma mulher: alta, magra, pômulos salientes, lábios e seios carnudos, silenciosa, cabelos grossos formando tranças, roupas desarranjadas, multicoloridas e gastas. De poucas palavras, sentou-se ao lado da cadela, como a esperar por comida. Artur ofereceu-lhe um prato e abrigo. Sem palavras. Apenas indicou o lugar à mesa, e o cômodo, com um catre limpo, seco e arejado. Com o tempo, ele aprendeu com ela histórias das muralhas construídas para defesa contra as Ondas Brancas, em Eredo, na cidade de Ijebu Ode, com quilômetros de comprimento e vinte metros de altura, sob as ordens de Bilikisu Sungbo. Histórias que sua avó lembrava e contava todos os dias ao final da tarde, junto ao fogão de lenha, na costa do cacau em Itacaré. Não tinha nome; as pessoas a chamavam de Nega Luísa. Passava seus dias a dirigir o trânsito, em cruzamentos de tráfego intenso, parava uns, liberava outros. Quando alguém ousava desobedecer a sua ordem, levantava a saia rodada, exibia o corpo nu, bem feito, e dava um berro forte de protesto que se ouvia de longe.  Arisca, não dava trela a ninguém. Conversava só com Artur. Com o tempo, passou a fazer parte da paisagem do bairro. Consideravam-na amalucada ou iluminada.  Ganhou o respeito e venceu o semáforo, agora inútil. O tempo a fez sentar. E, sentada, recebeu trocados de todos que passavam por ela. Sem pedir. Artur a ensinou a dizer palavras de agradecimento, depois de observar seu comportamento. Deu uma polida naquela pedra, para o seixo correr mais rápido. Ela guardava dinheiro sob o colchão de sua cama. Eles faziam bandejas e quadros com pedaços de dinheiro (mil réis, cruzeiros, cruzados, reais) guardados sob a cama, pintados e cortados em forma de asas de borboletas.  Além das histórias dos Iorubás, falava das ondas e das nuvens. Depois que deixou a Bahia, jamais tornou a ver o mar e o cacaueiro. Contentava-se em ver as nuvens, dando-lhes nomes, conversando com elas também. Uma que parecia pilão lembrava-lhe do milho e da pamonha quente cozida em folhas de milho ou de bananeira. Um dia, pediu a Artur que a levasse ao mar. Queria ver as ondas. Sempre diferentes, eternas, e efêmeras. Queria que sua vida fosse assim, como uma onda ou uma nuvem.

Nós fazíamos parte de sua mesa de jogo. Todas as semanas. Eu, seu vizinho, me chamo Tomás Paar.  Quando nos conhecemos, ao ouvir o meu nome, imediatamente respondeu: “Ímpar!”, escondendo a mão, atrás. Hoje, ele sempre diz, sorrindo: “O que tomas?”. Karel Vanderstappen, holandês, tem um hotel na Ilha Bela, e se tornou o Zé da Ilha, é outro participante, alegre, de bem com vida. Ofereceu sua casa quando se fizesse a viagem das ondas. Macário Smerdiakov, russo, nascido na fronteira da China, de cabeça redonda, onde os cabelos amarelos ficavam grudados, quase imperceptíveis, olhos oblíquos e azuis, atarracado, o mais sério do grupo. Torneiro mecânico, muito ordeiro, uma pronúncia horrível, duro e de bom coração. Odeia soviéticos e impostos. Virou, na hora, Esmérdia. Jogávamos sempre a dinheiro. O vencedor do dia era o responsável pelo jantar. As rodadas eram regadas a vinho, escolhido por Artur, chamava-o água do esquecimento; vodka escolhida pelo Esmérdia; e cerveja escolhida pelo Zé da Ilha. Depois da terceira rodada, qualquer ordem se transformava em desordem. Quando vencia o Artur, ele insistia para comermos em casa. Da sua horta e de seu pomar, como gostava de dizer. Apesar de cozinhar muito bem, aceitamos a primeira vez, mas o obrigamos a sair pela cidade dali por diante.

O melhor do jogo eram nossas conversas, infindáveis, histórias possíveis e impossíveis. Hoje, quero contar apenas um pouco da vida dele. Recordar aquilo que ele contou. Era órfão, criado pelos tios. Nasceu dia sete de março e morreu dia quinze do mesmo mês. No dia do seu aniversário, fomos ao cinema assistir a uma comédia musical. Convidou a Nega Luísa. Nós o convencemos da impossibilidade de levar Sultana, apesar de seus inúmeros argumentos em contrário. E nos divertimos a valer.

Ao sairmos, lembrou do episódio de um mujique, e nos contou, encarando malicioso o Esmérdia:

 “Um homem levou sua filha de dezessete anos ao médico. Ela se queixava de uma dor no lado. Ele a examinou, pedindo que voltasse depois de duas semanas, e assim sucessivamente, até engravidar a menina. Ao saber da notícia, conversou com a mulher e voltou ao consultório. Ponderou sobre o lamentável erro cometido; conseguiu falar com calma, dizendo que esperava dele, no mínimo, que sustentasse a criança. Não pediria nada mais que isso. O médico, cheirando o escândalo, concordou na hora. Acertaram as bases: cem rublos mensais. Depois de uma semana, voltou: ‘Excelência, caso seja um menino, o valor deve ser maior. Afinal de contas será um macho.’ ‘Claro, claro… quanto?’ ‘Duzentos rublos, até a maioridade.’ ‘Que seja assim.’ Na semana seguinte, tornou a voltar e disse: ‘Pensando bem, e se forem gêmeos?’ ‘Se forem meninos, dobro o valor, e, se for um casal, o valor é proporcional. É sensato assim?’ ‘É, parece justo.’ Uma semana mais, retorna o pai previdente: ‘Meu ilustre doutor, e caso ocorra um aborto?’ ‘O que se há de fazer? Todos estamos na dependência do Altíssimo,  e eu cuidarei da sua menina, claro.’ ‘Não é bem isso, doutor. Queremos saber, minha mulher e eu, se o senhor daria a ela uma outra chance?’.”

Hoje, faz uma semana que Artur morreu. O corpo foi cremado. Nós levamos suas cinzas e as espalhamos no Atlântico, depois de escolhermos a onda mais bela, na opinião da Nega Luísa. Depois, sentamos para jogar, desanimados, o jogo em três não é bom, fica manco, desajeitado. Enquanto misturávamos as pedras, ouvimos o cantar do sabiá-una, outro parceiro das nossas tardes. Chegamos até a grande janela aberta para o pomar, e o Esmérdia disse: “Vamos plantar um cacaueiro no jardim?”. 

Uma resposta to “Artur Alves Reis”

  1. Artur Alves Reis @ Non Liquet Says:

    […] em Histórias Possíveis # 56 ; ficarei muito feliz com sua leitura e (quem sabe ?), comentários. Category: Penso? You can […]

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