O cavaleiro da bela figura

Susana Fuentes

 

“Furte, coma, beba, e tenha amigo,
Porque o nome d’El-Rei dá para tudo
A todos, que El-Rei trazem na barriga”

 (Gregório de Matos – À cidade e alguns picaros, que havião nella)

 

Reunidos na taberna, em frente à lareira onde rodavam no espeto pedaços desiguais de cebola, maçãs embebidas no próprio mel e batatas tostadas, todos se encantavam com o rapaz tão desenvolto, cuja destreza com as palavras espantava a fome e deleitava os frequentadores uma terceira noite. Há três dias a nevasca castigava o vilarejo, e ele esperava o fim da tormenta para seguir viagem.

Um ouvinte admirado não pôde conter seu assombro:

— Veja aqui como todos gostam de você! Torceremos fatalmente para que o tempo continue assim por vários dias. 

— Ora, eu sei como é isso. — Respondeu o viajante. — Até meus inimigos gostam de mim.

— Mas você tem inimigos? — Perguntou seu interlocutor em protesto, ao que outros acenaram com a cabeça, igualmente incrédulos.

— Ah, tenho, e muitos.

As sombrancelhas ergueram-se curiosas, quem eram os seus inimigos?

— Não vou citar nomes.

— E porque eles não gostam de você?

— Isso eu não sei. O melhor seria perguntar a eles. — Percebendo que deveria mudar o rumo da conversa, tirou um livro do bolso e o deixou cair na mesa pela força de seu peso.

— Vou contar uma coisa a vocês. Toda vez que alguém causa uma boa impressão, ganha um inimigo. É verdade, apenas não conseguimos muitas vezes perceber de imediato, imersos em nossas ações e devaneios. Está aqui em Oscar Wilde: “A cada bela impressão que causamos, conquistamos um inimigo”.  

 

 

Na taberna, silêncio. Num instante de pavor, alguns se entreolharam, excitados diante do perigo de se revelarem inimigos em alguma ação inesperada. Mas logo sorriram, aliviados por estarem todos em paz com o cavaleiro que os impressionara tanto. Era bom ouvir lições inesperadas e a iminência do perigo só fez aumentar o conforto de estarem entre amigos.

—— Há estrelas lá fora. —— O viajante espiava pelo vidro da janela.

Não se ouvia mais o vento. Sem um rangido de cadeira, até o homem do balcão detera-se com a toalha na mão, esquecido de lavar os pratos e as canecas de vinho. Estava cada copo em seu lugar. O único ruído, os estalos dos gravetos na lareira.

—— Passou a tempestade. —— Sua voz traiu uma certa comoção ante a idéia de partir.

Todos estavam intimamente consternados com a partida do forasteiro. Dois pequenos olhos fixavam-se nele por detrás do balcão. Duas labaredas na face rubra da mulher que se voltou tímida quando percebeu ter sido notada. Retomou agilmente seus afazeres na pia. Tarde demais, era evidente a forte impressão que o estranho lhe causara. Notava-se no rosto jovial que ela ficara especialmente comovida e triste em constatar o fim da tempestade.

O silêncio desta vez desceu incômodo. Mudo, o viajante virou-se com outra expressão no rosto e então voltou a sentar-se. Estava claro que pretendia retomar a a conversação.

— Mais uma rodada de vinho! — O homem do balcão gritou a todos.

E no tilintar dos copos, sinos de pura felicidade: o viajante recuperava o fôlego. A garota, no balanço ingênuo da cabeça, revelava o encanto das palavras que chegavam a seus ouvidos. Somente um rapaz denotava um semblante amargurado, e contorcia-se na cadeira, sem encontrar posição confortável. Ali, diante do forasteiro, na mesa fora do alcance de sua vista, olhava em direção ao balcão. Sua mirada atravessava a penumbra até o rosto embevecido da mulher. Ali, o ódio começava a nascer na mesa solitária do rapaz, no desconforto da cadeira, no fel engolido à força a cada bela impressão causada pelo viajante.


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