Segunda Carta de um Romano Albino ao Pai [pingos caindo nos seus devidos iiiis]

Wesley Peres

 

Circunspecto. Círculos. A fumaça do cigarro. Sozinho no alpendre, pensa aos tragos. Envergonha-se do nome, pensa nisso. Paul Daniel, Paul Daniel. Não sabem nada da loucura, só a loucura sabe dela mesma. A loucura é uma voz tão para dentro que se verte numa escrita vinda de um Deus que perdeu os dedos — cresci ouvindo coisas assim e assado, cresci ouvindo meu pai pronunciando absurdidades e encerrando blocos de absurdidades com “assim e assado”. Entenda-se, o “assim e assado” era o ponto que fechava o feixe das palavras alucinadas e retransmitidas aos meus ouvidos por sua boca. Depois do “assim e assado”, num lusco-fusco de lucidez, meu pai era um homem partilhável, quase que um pai mesmo. Um pai intermitente, meu pai.

Estão todos a acertar as contas com os pais, que com as mães só os mais pios para esperar algum tipo de aparamento de arestas. Mãe é sempre uma mulher muito velha, com uns dentes enormes. Sei que tenho o meu quinhão de loucura, que essa herança se transmite por todos os códigos. O genético, inclusive.

Laura por exemplo, penso no meio do círculo, dos círculos. Laura aninha-se mentalmente na angústia seguinte, que lhe dá casa: “que se não fui ou sou, é porque serei louca, o DNA não mente, apenas cifra e recifra as modulações que nos trazem de volta à morte”. Não, não pensem que Laura é a mulher que entrará na história porque a amo, ou coisa parecida. Laura tem olheiras permanentes, dentes enormes como as mães, só que não é muito nem pouco velha. De velha, somente que é oracular, e que vive a pronunciar frases em itálico. E é nisso que penso, no alpendre, agora, enquanto apago o cigarro, amassando-o contra um cinzeiro-caixinha-de-Bis-chocolate-branco.

Se eu quisesse, enlouquecia, me digo, sei lá onde li isso, só sei que li. Se eu quisesse, enlouquecia. Repito a palavra loucura e seus derivativos, justo para que não enlouqueça, para não haver a tentação de se entregar a uma espécie  de iluminação — que não quero hospício, nem mosteiro búdico, nem (isso menos ainda) trabalho nas centrais elétricas do estado.

Mas sei que já estou louco. Não o suficiente para compatilhar sintaxes com meu pai, não o suficiente para manejar, com os ouvidos, a voz dele. E olha que ele não construirá nenhum barco a fim de nunca mais não pisar nunca mais em terra alguma


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