Arrimo

de Gerusa Leal

Foi depois de meses de sofrimento que resolveu partilhar o problema com a chefe. Sendo mulher, com certeza a defenderia. E assim aconteceu. O gerente, por razões que ela desconhecia, parecia temer alguma atitude da moça, embora fosse seu superior hierárquico.

Na cidadezinha do interior, Adélia caminhava para a escola, segurando um caderno e um livro debaixo do braço. Projetava as desejadas férias na casa das primas, na cidade grande. Atravessava os anos escolares, sempre com desempenho acima da média. Via-se, num futuro próximo, bem empregada, independente, e podendo ajudar a família, que nunca deixara de conviver com a precariedade das condições a que a aposentadoria por invalidez do pai e a por idade da mãe os submetia. Ainda abrigavam três filhas solteiras e dois netos; soltou um suspiro.

Agora, aos vinte e um anos, escrituraria na agência local de um importante banco privado, voltava ao interior para rever a família. Tendo concluído o segundo grau, contava com um salário decente, após rigoroso processo seletivo, em que a entrevista com o gerente fora decisiva para que fosse escolhida entre três candidatas finalistas.

Passaram a ser comuns as saídas com a chefe no final do expediente, na sexta-feira, para o chope. Achou natural a proximidade que aumentava, os abraços efusivos, a cabeça no ombro; a moça era uma pessoa muito afetiva. Ao contrário do gerente, que apesar de lhe haver deixado em paz, olhava-a de modo sisudo, como se ela lhe tivesse feito algum mal.

Cuidava dos telefonemas e dos arquivos, digitava, conferia, sabia examinar processos, fazer pareceres, distribuir a correspondência – e procurava se esmerar nas tarefas, para retribuir a proteção recebida.

Era uma moça bonita, solteira feito ela, que nascera e crescera na capital, chefiava um grupo de dez funcionários, a maioria homens, com atitude firme e até meio agressiva. Isso devia ser necessário para sobreviver no posto que ocupava. Apenas com ela se mostrava amável. E talvez para compensar, era dela que exigia mais.

Ocupava uma sala individual onde geralmente passava o dia inteiro, chamando os funcionários pelo interfone quando queria passar um serviço ou cobrar algum outro; no entanto, a porta geralmente permanecia aberta. Os demais ocupavam espécies de baias com divisórias baixas, por cima das quais se viam e se comunicavam, algumas ocupadas por mais de uma mesa, tão coladas que era preciso pedir ao colega para levantar quando se queria ir aos arquivos, ao café ou ao banheiro. O relógio ficava localizado numa parede de onde era visto de qualquer posição na sala, e quando dava cinco para as seis da tarde já estavam todos de pé atrás das mesas, com as bolsas a tiracolo e as chaves dos carros nas mãos.

A agência ficava no centro, em rua comercial, e próximo a cinemas, boates e teatros.  Naquela sexta, aceitou o convite de Carlos para irem ao cinema. Chamou a amiga, que no entanto disse que precisava ficar mais um pouco no setor para terminar um relatório. Mas que fosse com o colega, não se preocupasse.

Na segunda-feira, surpreendeu-se com a baixa pontuação no quesito responsabilidade na avaliação de desempenho. Pediu para falar com a chefe, que lhe disse que precisava estar mais presente, que um bom desempenho não se limitava ao cumprimento do horário oficial.

Foi uma semana esquisita, a outra parecia evitá-la, só lhe dirigindo a palavra para o essencial em termos funcionais. Um dia escutou, de passagem, um comentário depreciativo da chefe sobre seu relacionamento com o colega. Ficou muito triste. Mas decidiu não se abater.

Ainda bem que Carlos a convidou para um teatro na sexta-feira seguinte. A que ela iria com gosto. Não fosse haver sido chamada, às cinco da tarde, à sala da chefia e designada para a conclusão de um trabalho que não lhe permitiria sair antes das dez da noite. E assim o teatro ficou adiado.

Passado o fim de semana, voltou ao trabalho determinada a não deixar o serviço se acumular. Empenhou-se como nunca. Na quinta-feira já perguntou se haveria algum serviço para após o expediente, recebendo resposta negativa e um sorriso de simpatia. Animou-se; parece que fosse lá o que fosse que fizera com que a chefe se afastasse, havia sido superado.

Durante todo o dia, as duas voltaram a trocar piadas e confidências, num clima de camaradagem. Falaram de sonhos, de projetos, de preferências, de roupas. Foi quando a chefe lhe puxou o decote da blusa e sussurrou ao ouvido: safadinha.

Ela riu. Que bom que haviam voltado às boas.

Faltando cinco minutos para o final do expediente, foi chamada, com ares de cumplicidade, à sala da chefia. Foi-lhe dito que trancasse a porta,  algo importante lhe seria participado. Sentou e aguardou, na expectativa, enquanto a outra girava a caneta entre os dedos, sorridente. Ficou sabendo que havia sido criada mais uma função comissionada no setor, e ela estaria sendo cogitada para ocupá-la.

Deu um pulo de alegria e se abraçou à chefe, que lhe beijou o pescoço, dizendo que tinha grandes planos para ela.

O ônibus parou na estação e a mãe, as irmãs e os sobrinhos vieram, alegres, ao seu encontro. Abraçou-os, e uma lágrima desceu-lhe pelo rosto. A mãe também se emocionou, afinal fazia três anos que não via a filha. Que, no entanto, nunca deixara de mandar a ajuda mensal para as despesas. A tentação de ficar, de se abrigar, feito as irmãs, sob as asas da mãe, era grande. Mas só conseguira vinte dias de férias. E a família contava com sua ajuda.

Passou o dorso da mão esquerda discretamente no olho, sorriu e desceu na plataforma de desembarque. Apesar de ser uma segunda-feira, a chefe lhe dera o dia de folga. E a esperava na estação para levá-la para casa.


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