Black is beautiful

de Daniela Mendes

ainda a série: Não Seria Trágico se não Fosse Música

Há quantos anos Artur não acreditava que um acontecimento poderia ser fortuito. E ele que rebaixara a esperança à vulgaridade, agora entendia que ela era feita com a massa de surpresas. Não queria mais ser um filósofo e desejou por toda a vida esquecer cada profeta. Só para ver renascido em si aquela ânsia e alegria diante do acontecimento do belo. Como era bom sentir-se um verme do sexo ao perseguir a carne negra pelas ruas poluídas e inundadas de gente barata. O que fora até agora se não uma pele alvejada? Com todas as forças queria colorir-se e tinha pavor de imaginar a vida lhe negando este capricho. Ele só queria sentir aqueles glúteos vivos se movendo dentro da palma de sua mão. Imaginava sua mão transbordando no rebolado e escorregando seu dedo bem próximo à fenda, que engoliria seu indicador. Enquadrar as costas segurando-o pela cintura e sentir o membro intumescer dentro do traseiro enquanto aquele cheiro de castanha adocicada ficaria mais forte à medida que o ato fosse se consumando. Por toda sua vida, por que perdera tanto tempo com os iguais a si? Pensar que o couro lanoso da cabeça daquela prenda de ébano bem poderia lhe esfregar a barriga relaxando seu ventre para ter o pênis sugado e o cu violado em retribuição. Não conseguia se decidir qual abordar. Quantos negros lindos ele via! Agora todo projeto de sua vida se resumia em ter um homem de cor. As pernas bambeavam e o desespero aumentava à proporção do cansaço. Não podia chegar em casa derrotado. Levou toda a juventude para expurgar necessidades e agora, em vingança, a cobiça lhe dera uma rasteira levando sua incapacidade de amar a uma bestialidade jamais experimentada. Artur, se impossível fosse a satisfação do apetite, se jogaria na frente de um carro. E se caso se descobrisse tão covarde em dar cabo à vida, cairia de joelhos e choraria feito um bebê.

De repente, quando já se encontrava na rua do Ouvidor, encontrou um tipo parado, com a carapinha colorida de amarelo e boné desbotado. Erguia com uma mão um compact disc e gritava:

– Olha ê! Olha ê! Bruno & Marroney cinco real! Cinco real! Cinco real! Bruno & Marroney baratinho…

Artur, em sua loucura agarrou os punhos do garoto, sem poder medir pela vertigem da explosão de lascívia o descomedimento do bote. O menino levou um susto e se livrou como de sabonete fosse. A mão de Artur no ar sentida por um relâmpago que passou raspando nela para lhe inventar mais carência…

Um outro belo negro, mais maduro, atribuindo muita nobreza a Artur consolou:

– ô doutor, ele pensou que fosse um fiscal.

E Artur pensou: se eu fosse um negro, ele não fugiria… Queria ser um negro lindo agora à altura daquele ali. Contudo, ainda sem o ser não se intimidou:

– E você? Qual o seu nome?

Para M.E.

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