Dois Senhores

de Mauricio Melo

Os caminhos não se cruzam, a cidade sem encruzilhadas, esquinas, as linhas retas – descaminhos solitários. Um som – tic-tac, tic-tac – martela o passar do tempo e os homens caminham em direções opostas por calçadas paralelas, separadas pelo asfalto onde trafegam carros, cavalos e outras alucinações. Naquele minuto tudo para sob o sol, nenhum movimento além dos homens que se cruzam em pisos distantes e sequer se olham, se enxergam. Ninguém sabe de ninguém na argamassa de concreto e solidão.

Os homens têm destinos distintos.

Magro e alto deixou cortar os cabelos que escoriam pelos ombros no tempo das revoluções quando maturou o talento, modulou a arte com novos conceitos, ritmos inovados, uma poética do caos; sobrou o olhar tenso, cadavérico, olhar de quem viveu de intensidades, passagens agora inúteis. Por este mesmo tempo de revoluções o outro deixou crescer a barriga, ganhou peso, perdeu o viço antigo; sobrou o riso inquestionável dos olhos, uma vivacidade agora inútil. As olheiras profundas de miséria do mais moço, o magro, o renomado, se opõe a certa claridade próspera do mais velho, o gordo, o anônimo. O tempo com suas manias e ruínas.

Há trinta e cinco horas o mais moço sentou com seu violão num banco alto diante de uma platéia formada por quase amigos. Havia uma cor de renascimento, um apagar da marginalização voluntária refletida nos ossos quase à mostra sob a calça branca, a blusa preta de malha, a camisa de mangas longas e informal; o passado se varria para o baú das coisas de ontem, o hoje era o gesto inaugural do pai a lhe ensinar acordes, tons, afinações, campos harmônicos, o hoje era essa necessidade incontrolável de retomar os rumos, compor, cantar, tocar; e a vida a esbarrar no inevitável.

Há trinta e cinco anos o mais velho sentou com suas ferramentas numa cadeira confortável diante de engrenagens desfeitas. E a rotina se repete com a pontualidade de quem não espera surpresas. O senhor mais velho replica os gestos que aprendeu com o primo; mudam marcas e formas, ficam os gestos, a precisão de abrir o relógio parado, limpar o necessário, trocar as peças desgastadas, fazer o tempo girar sempre em torno do mesmo eixo, os mesmos ponteios passando sobre os mesmos números, casando, criando os filhos, construindo um conforto; e a vida como um espelho do dia anterior.

Há trinta e cinco dias o mais moço mandou para a mulher e o filho um pouco do que amealhou, cachês miúdos; antítese ao momento da excelência fonográfica, os auditórios lotados, a conta bancária, direitos autorais e vendas; tudo foi se esgueirando pelos becos do tempo, se abrigando nas sombras do hedonismo, na solidão cada vez mais profunda, intensa, perdulária; uma vida sem paralelos, com espelhos embaçados pela poeira do tempo – tudo tão ontem – uma plena expectativa, sempre um dia como estilhaço do anterior.

Há trinta e cinco meses o mais velho embalou na maternidade mais um neto. Uma vida regular, regulada, sem sustos. Três filhos, seis netos, o compasso pontual do relógio, um retrospecto natural de deixar o interior, ir para a capital, buscar novas terras, novas esperanças, casar na maturidade, as finanças estáveis, prosperar, educar os filhos, simular aposentadoria, ver nascerem os netos e caminhar solitário no intervalo do almoço, no começo da tarde.

Uma música longínqua doma o silêncio da tarde – ainda um sucesso, uma voz popular –, assoma o ouvido do músico, que reconhece os acordes e sabe: que poderia ser o outro, com carro e casa confortável, bastava ter cedido às condições sugeridas, mas então a música já está do outro lado da rua e invade a sensibilidade adormecida do mais velho que lembra a gaita da infância, a emoção de tocar para os vizinhos, o violão dedilhado na juventude e poderia ter usado o ouvido musical para outras paixões, mas tudo se voltou para outras veredas – a vida na condicionante.

Engordados pelas lembranças, dois homens caminham sob o sol da tarde. Seguem em direções opostas ao encontro do não-desejo, do nada, da quitação dos instantes que já quase não são deles; ex-senhores das horas.

Pouco sabem da areia que escorre dos domínios da ampulheta.


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