Fragmentos

de Lúcia Bettencourt

Sua avó lhe ensinara que era possível recuperar quase tudo. O que se quebrava sempre tinha conserto,  e, quando o dano tinha sido extenso demais para recuperar, sempre seria possível guardar um pedaço do que sobrara para enfeitar algum projeto futuro.

Foi assim que ela se habituou a guardar pedaços de fita e retalhos, fios de palha e missangas coloridas,  pedaços de papel de presente, bonecos sem roupas nem olhos, elásticos e botões retirados de blusas rasgadas ou manchadas.  As caixas de guardados foram se multiplicando. Uma caixa de botões, de todas as cores e formatos, Uma caixa de retalhos, cujas cores, de início alegres e vibrantes, foram ficando cada vez mais mortiças e apagadas. Uma caixa para cada tipo de coisa, desde as caixas pequenas de grampos e alfinetes até as grandes caixas com batedeiras e liquidificadores já enferrujados, formas furadas, talheres desirmanados.

A princípio, ela só pegava as caixas para depositar novos guardados, fragmentos de vida que se esfacelavam e ela ia entesourando, guardando para um projeto posterior. Pouco a pouco, as caixas foram se empoeirando e ela passou a retirar delas as migalhas que podiam restaurar suas pequenas tragédias.

De tempos em tempos ela retirava dos guardados algumas peças que se transformavam em colchas de retalho, colares, ou ofereciam suas peças para reporem outras que se haviam desgastado.  Com seu jeito simples, ofereciam mementos que apaziguavam um coração maltratado por algum sonho interrompido. Um emprego perdido poderia se transformar numa colcha, quentinha, mas inútil, naquela terra de verões prolongados e quase nenhum frio. Uma doença mais séria podia encontrar distração nos colares refeitos a partir de velhas contas desirmanadas, que iam sendo combinadas por critérios novos, formando uma nova lógica, apontando uma outra intenção. Aos poucos, essas atividades também foram ficando mais raras, e uma nova fase se iniciou.

De tempos em tempos ela passou a pegar uma das caixas mais pesadas para apenas examinar seu conteúdo brilhante, enquanto em seu rosto deslizavam lágrimas . Em cada lágrima, uma história se derramava.


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