O silêncio dos cães

de Leandro Resende

As regras da casa eram bem claras. “É proibido conversar com os cachorros.”

Desde quando era nova, (aliás, ainda era nova, só tinha oito anos) lembra de ouvir falar: “É proibido, não fica conversando com cachorros. Não pode. Tá proibido.”

“E será que a mãe dos cachorros também proibia os seus filhotes de conversar com a gente”, Betânia se perguntava. Mas a menina não levava o assunto a sério, pensava ser iguais aquelas regras que nascem prontas e se cumpre, tipo: “não coma formigas nem terra, todo dia tem arroz no almoço e leite de manhã, mamãe é melhor do que a vizinha chata ou todo Natal tem presente”.

Mas, um dia, folheando a revista do papai, Betânia descobriu o segredo.

Logo ligou para Maria Manuela: “Manu, você não sabe o que eu descobri. Vou ler pra você a matéria. Peraí. Escuta: ‘Justiça mantém lei que proíbe falar com cachorros’.”

“Escuta o resto: ‘Juízes mantiveram a medida preventiva de que é proibido seres humanos, principalmente, crianças, falarem com cachorros. A decisão ocorre porque em vários Estados, nos últimos cinco anos, cães passaram a demonstrar aptidão da fala e, na maioria dos casos, a influenciarem pessoas a práticas que davam aos animais uma perigosa concentração de poder. Para os juízes, o caso precisa ser melhor estudado pelos cientistas. Os cães ‘falantes’ foram isolados e interrogados. Eles negam a tentativa de comandarem seus donos e todos em volta, mas, claro, admitem que aprenderam a falar. Para os investigadores, os animais têm um certo poder hipnótico em seus proprietários e o risco, para os juízes, era a formação de pequenos exércitos, pois, por incrível que pareça, as intenções, ordens, direcionamento são muito parecidos. A Polícia Federal e a Justiça suspeitam que exista algum tipo de comunicação entres estes animais, mas não divulgou quais seriam as semelhanças das ordens.”

“Vixe Maria”, disse Maria Manuela do outro lado da linha.

“É, sério. Deixa eu continuar a matéria: ‘Fofão, Princesa, Lindinha, Duque, Pitico, Pitoco, Preta, Salsicha, Fuzil, Bolinha, Luna, Tigresa e Fera, além de doze outros cães (que não tiveram seus nomes revelados), estão presos em celas isoladas. Para a presidente do Tribunal de Justiça, Têmis da Silva, é muito cedo para tirar conclusões, mas os relatórios da polícia apontam para animais bastante articulados, com boa fala e capazes de dominar seres humanos com inteligência média. ‘Eu não sei se os cachorros evoluíram muito ou se os humanos regrediram um tanto bom. Talvez as duas coisas’, brincou a juíza, para depois completar: ‘Vamos esperar a conclusões dos cientistas. Pedimos que cumpram as medidas do governo, de não falarem mais com os cães, pois não sabemos quais são os objetivos ou mesmo se tem objetivos. Não descartamos a possibilidade de sacrificarmos todos os cães – ou pelo menos os que falam – caso se confirme a tese da conspiração.”

“Nooooooooooooooooooooooossa. Matar a Shakira!!!!”, desesperou-se do outro lado da linha a amiga Manu.

“Pois é. Precisamos de um plano para salvar a Shakira.”

“O que você sugere?”

“Não sei, pergunta pra ela. Primeiro precisamos saber se ela também fala. Vai lá, pede para ela ser sincera, explica o caso, o risco para ela.”

“Tá, depois eu te ligo.”

Três horas depois.

“Betânia, tudo bem. Tem alguém perto de você?”

“Não.”

“Então, falei com a Shakira. Ela também fala. To chocada. Ela tem uma voz tão bonita.”

“Noooooooooooooossa senhora, Manu. Ela gosta de mim? Você perguntou?”

“Perguntei, sim. Ela gosta. Ela tá muito preocupada. Segundo ela, existe sim uma conspiração, mas ela não pode detalhar muito. Ela não quer participar deste plano diabólico, ela quer nossa ajuda.”

“Como?”

“Não sei. Fala com ela no telefone.”

“O quê? Falar com ela no telefone? Não, não sei. Tenho vergonha, é estranho, é estranho demais. Queria não.”

“Olha, Betânia, é importante, precisamos salvar muita gente.”

“Tá bom, tá bom. Coloca ela na linha.”

“Oi, Shakira.”

“Oi, Betânia.”

“É estranho falar com você.”

“É, para mim também é estranho. Mas preciso da sua ajuda. Resolvi acabar com tudo isso. Quero colocar um fim nesta grande ameaça que vem se formando nos últimos anos para a boa convivência entre cães e homens. Isso já foi longe demais. Quero sua ajuda.”

“Como posso ajudar?”

“Vocês podem me ajudar a procurar a juíza Têmis. Levem-me até ela. Eu quero negociar minha situação. Se eu entregar todo sistema, quero permanecer com vocês e, claro, viva. Por estas garantias, topo negociar. Digo tudo, todo plano e nomes. Datas, horários e cabeças.”

E assim aconteceu. Três dias depois Têmis e Shakira se reuniram separadamente. Uma mega operação canina foi iniciada. Tudo ocorreu de uma forma discreta, ninguém percebeu. Centenas de cães insurgentes foram presos e isolados, enquanto Shakira teve seus direitos preservados e continuou com Manu.


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