Prezada senhora editora

De André de Leones

O motivo pelo qual a senhora recusou a minha história permanece obscuro. Sei que escrevo de maneira correta, evitando quaisquer erros gramaticais e escolhendo bem as palavras. O meu texto é perfeitamente legível e fluente. Logo, o motivo deve ser de outra ordem. Também entendo que a minha história é de interesse das leitoras da revista, assim como algumas das histórias delas me interessaram em diversos momentos. Sempre procurei olhar para os lados, reconhecer o próximo, exercitar a empatia. Minha humanidade jamais foi colocada em questão por ninguém. Sou uma mulher bem sucedida, tenho carro e apartamento quitados e viajo todos os anos para onde bem entendo. Ajudo os meus familiares sempre que solicitada e até mesmo quando não sou solicitada. Jamais enganei ninguém, nunca fui desonesta. Pago os meus impostos. Vou à missa sempre que possível, em geral no último domingo de cada mês e quando a morte de algum parente faz aniversário. Venci um câncer. Trabalho muito. Em poucas palavras, sou uma pessoa decente e absolutamente normal. Os acontecimentos narrados no e-mail anterior cumpriam, na minha opinião, com todos os requisitos necessários para figurar na seção “Esta é a minha história”. Uma história real. Mais do que real: verdadeiríssima. Além disso, foi a maneira que encontrei, aconselhada pela minha terapeuta, de superar de uma vez por todas os eventos traumáticos que sobrevieram no decorrer do ano passado. O modo insano e infantil como me entreguei a alguém que mal conhecia e tão mais jovem do que eu. O desequilíbrio, os desencontros, o desespero. A obsessão, os ciúmes doentios, o desarranjo financeiro. A insistência dele, as ameaças, os telefonemas, os escândalos, os problemas financeiros que assumi sem ter qualquer obrigação legal ou moral apenas para que ele e sua família de parasitas me deixassem em paz. O momento em que eu afinal percebi a terrível situação em que me encontrava. O sangue frio necessário para retomar o controle da minha vida, recolocar as coisas em seus devidos lugares, recompor-me e recomeçar. As lições que todas nós podemos tirar de tudo isso. Como leitora (e assinante!) da revista desde o seu primeiro número e, portanto, profunda conhecedora de seu conteúdo, entendo que a minha história nasceu para figurar em suas páginas. Na verdade, quando em meio à tormenta, muitas vezes me ocorreu que um dia tal coisa aconteceria, que, mais cedo ou mais tarde, e eu rezava para que fosse mais cedo, a minha história estaria em suas páginas. Isso me dava forças para perseverar. Assim, peço à senhora que reconsidere. Se for o caso, acatarei as sugestões que por ventura fizer. Tudo no interesse de tornar a história melhor e mais interessante, se é que isso é possível. Sou toda olhos e ouvidos. Estou às ordens. Antes de encerrar este e-mail, gostaria de lhe contar algo que aconteceu dias após o envio da minha história. Algo que, se a senhora julgar pertinente, poderia até mesmo ser adicionado ao texto original. Talvez como uma espécie de epílogo. Há alguns dias, fui jantar com uma colega de trabalho. Escolhemos um restaurante localizado na região do Itaim, próximo à minha residência. Deixei que ela escolhesse um bom vinho para acompanhar o salmão ao molho de gengibre com creme de maçã que pedimos. Eu conheço essa colega há mais de vinte anos, desde quando fomos contratadas pelo banco. Duas jovens recém-formadas e ambiciosas. Ascendemos juntas na empresa. Ela me acompanhou por todo o meu recente calvário, sendo imprescindível na minha recuperação, e eu estive ao lado dela quando mais precisou, anos atrás, no longo e tenebroso inverno de sua separação, o marido brigando por migalhas, os dois filhos contra ela, a humilhação de ter sido traída por anos a fio, a mudança para um apartamento menor, tudo de ruim que poderia acontecer a alguém naquelas circunstâncias. Destroçadas pela vida, soubemos nos recompor e seguir em frente. Apesar de tudo. Apesar de todos. Enfim. Estávamos à mesa degustando o vinho e o salmão quando ela assumiu uma expressão muito séria e perguntou quando foi que eu o vira pela última vez. Assim, gratuitamente. Após um momento de hesitação, atordoada com a pergunta, respondi que não sabia dele há exatos três meses e nove dias. Ela pousou os talheres no prato e me encarou, ainda muito séria. “Ele morreu?”, perguntei quase num sussurro. Minhas pernas tremiam. A cabeça girava. Então, como se alucinasse, vi a minha colega abrir um enorme, interminável sorriso. E compreendi. Levantei-me em silêncio, cambaleei até o banheiro e, dignamente ajoelhada junto ao vaso sanitário, enfiei dois dedos da mão direita na garganta e fiz questão de deixar tudo ir embora.


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