Carolina

Gerusa Leal

Era uma casa antiga. No espaço entre o telhado e a laje abrigavam-se morcegos, nos trechos ainda não cobertos pelas trepadeiras grades de ferro castigadas pela ferrugem, muros de pedra esverdeados pelo musgo.

Carolina vestiu o agasalho cinza, calçou os tênis. Atravessou a rua, pegou o calçadão. A vizinha estava passeando com o cachorro. Usava uma blusa preta de lã de gola alta sobre uma saia de um azul desbotado, um chapéu cor de palha, óculos de armação escura, pesada. Carolina acenou para ela. Quando era menina, uma louca indigente andava pela vizinhança arrastando um cachorro magro, falando sozinha indecências que faziam a criançada rir com as mãos tapando a boca. Carolina sorriu enquanto começava a caminhada.

Depois do almoço, foi até o shopping, precisava de roupas de frio. Avistou umas luvas de crochê azul que lhe agradaram muito. Preferiu, no entanto, comprar meias brancas para os tênis, roupas de baixo pretas, quatro blusas de vários tons de cinza e uma saia grafite. Sua mãe jamais aprovaria a extravagância de um par de luvas azul. E para usar quando? Nunca fazia frio suficiente para luvas onde morava. Não sabia nem para quê algumas lojas exibiam luvas nas vitrines, mesmo no inverno. Talvez para quem fosse viajar às cidades serranas. Mas ela não ia. Enfrentou a fila, pagou as compras, voltou para casa.

Enquanto entrava no jardim, Carolina pensava nas luvas que deixara de comprar. Fechou o portão, pressentiu um movimento, olhou para cima.  Sobre o muro, agora parado olhando para ela, um gato magro e preto, com um grande buraco em carne viva que mutilava quase todo um lado da cara como se tivesse levado a pior na briga com um cachorro feroz. Quis espantar o animal, teve pena. Também não queria aquele gato doente rondando sua casa. Saindo do transe, deu um passo para trás, o gato também descongelou e disparou pelo muro saltando para a rua.

Carolina foi até a cozinha, pendurou a chave no gancho da parede, lavou as mãos, preparou umas torradas com manteiga e geleia, bebeu um copo de leite.  Sentou-se na poltrona, ligou a TV. Perguntava-se ainda por que não tinha comprado as luvas. E que diabos havia acontecido àquele gato. Começou a bocejar.

Por alguns momentos não reconheceu o lugar onde acordara. Não se lembrava de haver viajado. Aliás, fazia muito tempo que não viajava. Mas a sensação era aquela, de acordar em outra cama que não a sua. Abriu os olhos, surpreendeu-se de estar na própria casa. Sentou-se na cama, estranhou ainda mais: parecia-se com ela, mas não sabia quem era aquela no espelho da penteadeira. Mesmo quando viajava de fato, nunca se sentira assim tão deslocada.

O chão estava frio, calçou os chinelos. Deu uma volta pelo quarto, olhando tudo, tocando nos objetos, ensimesmada. Alcançou a porta, girou a maçaneta, saiu para o corredor. Parecia mais comprido. Um fio do cabelo lhe roçou o ombro, ela deu um salto. E depois sorriu. Exceto pelo nervosismo que provavelmente a visão, no começo da noite, do gato estropiado lhe causara, estava mesmo em casa.

E então, quando entrou na cozinha, seus olhos viram a mãe de pé diante do fogão preparando alguma coisa, o pai sentado na cabeceira da mesa, lendo o jornal. E eram mesmo seu pai e sua mãe, ainda em pijamas, esperando-a para o café, como faziam todas as manhãs. Nada mais natural. Exceto pelo fato dos dois estarem mortos já há alguns anos.  

A mãe voltou-se, recebendo-a com um carinhoso sorriso:

– Aceita um mingau de aveia, filha?

Carolina não disse nada. Caminhou até a cadeira que costumava ocupar,  sentou-se.

O pai continuava atento ao jornal, a mãe se inclinava para despejar o mingau no prato à sua frente. Repetia o gesto diante do prato do marido, servindo-se por último e já indo deixar a panela na pia, abrindo a torneira para enchê-la de água, deixar de molho, facilitando assim a lavagem, para só então sentar-se também à mesa exatamente como fazia antes.

Por uns momentos Carolina não queria mais sair daquela cozinha, nutrida que estava pelo mingau, o sorriso da mãe, o silêncio do pai. Nem se mexia para não quebrar o encanto. No entanto, reparou que o relógio sobre a pia também não se mexia, assim como não se mexiam mais o pai ou a mãe, congelados em seu sorriso e em seu silêncio. Feito o gato estropiado por alguns instantes em cima do muro na noite passada.

Sentiu uma necessidade urgente de fugir dali, levantou-se, dirigiu-se rapidamente à porta, mas então a mãe já lhe barrava a passagem, mãos nos quadris, os olhos sem expressão, mas Carolina sentia que ela estava furiosa. A mãe apontou um dedo para a mesa, onde dentro de uma caixa aberta estava um par de luvas azuis.

– Mas eu não comprei – disse Carolina – juro que não comprei.

A mãe, já outra vez sentada diante do seu prato de mingau, não disse nada. Talvez não tivesse ouvido.

– Sou uma adulta – disse alto, mas as palavras soaram distantes como se ela estivesse falando do fundo de uma caverna. Sou uma adulta, não sou?

E de fato era. E assim respirou fundo e enveredou pelo corredor com energia, pressentindo que voltar para o quarto seria pior.  Não encontrando a saída de casa, subiu pela escada pretendendo alcançar a laje onde habitavam os morcegos mas chegando lá encontrou sentado numa poltrona lendo o jornal o gato estropiado, que a recebeu com um carinhoso sorriso.

– Não era aqui que se entocavam os morcegos?

– Mas isso foi há muito tempo – respondeu-lhe o gato. Então você está de volta.

– Não. Não estou de volta. E não comprei estas luvas – respondeu Carolina espalmando e exibindo as mãos enluvadas.

– Gostaria que as tivesse comprado – disse o gato sem expressão na voz.

– Você é engraçado – disse Carolina. Muito engraçado. Que me importa do que gosta ou do que não gosta?

Desceu as escadas, passou pelo corredor, pisando com firmeza, fingindo não temer que de repente o gato lhe pulasse nas costas. Na sala, a mobília era a mesma, o sofá, os quadros, a mesa, porém as figuras pintadas no tapete pareciam líquidas e haviam mudado de posição, estavam embaralhadas, como se alguém as tivesse misturado feito se mistura a tinta antes de aplicar na parede. Do outro lado da sala viu uma porta de madeira num lugar onde antes era uma das paredes. Carolina tentou não prestar atenção na porta como se ela fosse sumir de repente se a encarasse.

Espiou pela janela, viu que estava chovendo.

Quando voltou a olhar a porta, havia de fato sumido. Resignada, apagou a luz, deitou-se no sofá e ficou escutando a chuva. O toque do telefone a fez levantar-se num pulo. Ao tentar alcançá-lo, no escuro, tropeçou em algo peludo que miou e correu.

Era engano.

Que estranho ter adormecido no sofá. Esfregou os olhos, espreguiçou-se. De repente, lembrou-se de tudo. Acendeu as luzes, esgueirou-se pelo corredor, na cozinha as coisas em ordem como ela lembrava de haver deixado antes de ir dormir. Voltou, abriu vagarosamente a porta do quarto, entrou desconfiada, deu uma volta olhando tudo, tocando nos objetos. Com um profundo suspiro, largou-se na cama abraçando o travesseiro e sorrindo. Feliz de estar em casa.

Quando os primeiros raios de sol entraram pelas brechas que o vento abria entre as folhas da persiana, finalmente despertou. O ruído do trânsito que aumentava na avenida anunciava que o dia estava começando. Carolina vestiu o agasalho cinza, calçou os tênis, atravessou a rua e pegou o calçadão.

Parou um instante, olhou para sua casa. Era uma casa antiga. No espaço entre o telhado e a laje abrigavam-se morcegos, nos trechos ainda não cobertos pelas trepadeiras grades de ferro castigadas pela ferrugem, muros de pedra esverdeados por um musgo abundante. Carolina acenou para a vizinha que passeava com o cachorro e começou a caminhada matinal.


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