Carta para Julieta

Lúcia Bettencourt

Querida Julinha

Encontro sua carta aqui entre meus livros. Foi hoje de manhã, quando comecei a arrumar a biblioteca, e peguei, ao acaso, um livro que nunca terminei de ler,  um livro antigo de Cortázar, que pertenceu à minha avó. Ela gostava dos escritores argentinos, e brincava dizendo que esse era o seu castigo, amar um vizinho incômodo.  Sua carta é da época em que ainda namorávamos, quando a gente achava que não podia viver sem o outro. Lembra do escândalo que fizemos por causa do Natal? Nossas famílias acabaram tendo que fazer planos de maneira a passarmos a festa todos reunidos. Mas, dois dias antes da celebração, você cismou que eu estava de olho na Rosalinda Miranda, aquela que jogava tênis com a gente no clube, e brigou comigo. Não adiantou nada do que eu falei, nem as broncas de seu pai, nem as conversas com a sua mãe e minhas irmãs. Você passou o Natal trancada no quarto. E eu fiquei na sala, tendo que escutar as gracinhas do seu pai e do meu, e agüentar a festa mais chata e constrangedora, com meus pais se sentindo  fora de seu ambiente, e sua mãe bebendo demais, e rindo sem parar, até que meu pai se desculpou e disse que íamos à Missa do Galo e não podíamos mais ficar ali. Mas era uma desculpa, nós nunca íamos à Igreja, ninguém ligava para isso lá em casa.

A gente estava sempre brigando e fazendo as pazes, acho que era coisa da idade.  Você era muito ciumenta, espero que isso tenha passado. Por mais que eu demonstrasse que só pensava em você, você vivia inventando histórias e dizendo que eu era um egoísta e insensível. Mas eu só gostava de você, Julinha. Seus cabelos louros, sua covinha só do lado direito, seu sorriso meio tímido, como se tivesse medo de abrir muito a boca… Você era a garota mais bonita da escola e eu me sentia o mais feliz dos homens quando estava do teu lado. Lembra daquela vez em que fomos  parar na diretoria porque  eu grafitei toda a quadra com o teu nome dentro de um coração?  Julinha. Julinha, Julinha, em corações grandes e pequenos,  com letras enormes ou pequenas,  pintei toda a parede, e você , quando fui chamado para levar bronca, tomou as minhas dores e entrou na sala do diretor para me defender. Com sua vozinha de nada, você perguntou para ele “O senhor, por acaso, sabe o que é estar apaixonado?” E o brutamontes riu, dizendo que a gente pensava que amor era coisa fácil, que bastava escrever nome na parede, mas amor era coisa muito diferente do que a gente pensava?

Ele tinha razão, Julinha. Quando releio esta carta que acabo de reencontrar aqui entre os livros, vejo que a gente era mesmo muito ingênuo, que pensava que amor era essa coisa de trocar poema, de andar de mão dada, de beijar, essas coisas hormonais que nos faziam suar e tremer só de olhar um para o outro, de tanta tesão. Penso na coragem que tivemos de, finalmente, encarar o mistério do sexo, mas nem foi mesmo coragem, aquilo foi mais uma conseqüência, uma  evolução natural, o fato de estarmos juntos quando minhas irmãs saíram, e de meus pais nem terem reparado. O beijos e os abraços foram esquentando e você  dizia não, mas me puxava de volta e dizia “só mais um pouquinho” e eu estava cada vez mais louco e aí já não conseguia mais parar, até que você deu um grito e eu me assustei, e vi suas lágrimas, mas você me apertava entre as coxas e me beijava, e eu estava apavorado, tinha até perdido o ânimo, mas logo me reanimei e então, desajeitados, nós nos entregamos e  depois era difícil pensar em outra coisa, mesmo quando estávamos longe, cada um em sua casa, eu sentia seu gosto, seu cheiro, e meu corpo reagia como só o corpo de um garoto de 17 anos reage.

Mas aí você escreveu esta carta, esta que agora tenho nas mãos, e que eu pensei que tinha destruído num acesso de raiva. Agora releio a carta e a dor que senti ainda lateja na minha memória. Por que Julinha? Eu telefonei, te esperei em frente da escola, fiz todas as coisas ridículas que um homem apaixonado faz, mas você nunca mais me atendeu, nem olhou para minha cara. Passava direto e entrava no carro, com vidros fumé. Eu olhava para você entrando naquele carro e era como se eu te visse entrando num túmulo, escuro e frio.  E foi por isso que me desesperei, que tomei aquele porre que me deixou mal, tão mal que eu quase morri, mas, de certa forma, foi bom, pois foi só assim que descobriram que eu era diabético, e comecei a me tratar. Mas isso foi depois de passar uma semana no hospital, tomando soro e calmante, e você nunca foi me visitar, nem sequer perguntou por mim.

Quando voltei a circular, já curado fisicamente, mas ainda com um buraco no lugar do coração, você tinha partido.  A vida continuou e nunca mais eu soube de você. Quem diria que hoje, tanto tempo passado, eu fosse encontrar sua carta, aqui, entre os livros antigos que eram de minha avó, e que  recebi de herança. E agora, arrumando minha biblioteca, quase que do outro lado do mundo, suas palavras vem me ferir ainda mais uma vez. Engraçado, acho que nunca deixei de te amar. Ou talvez esse sentimento ainda exista porque nunca te respondi, nunca consegui dizer as coisas que ficaram engasgadas em minha garganta por tanto tempo, e que sufocaram meu coração a tal ponto que nunca mais consegui sentir por ninguém aquilo que senti por você. Nenhum beijo que dei teve o mesmo sabor dos que dei em você. Nenhum corpo despertou os meus sentidos como o teu. Nem mesmo minha mulher conseguiu me tocar do jeito que você me tocou.

Agora releio sua carta e resolvo que preciso escrever uma resposta. Mesmo sabendo que você não poderá lê-la, mesmo sabendo que tudo pertence ao passado e que, nesta rua de mão única que é a vida, nossos corpos jamais voltarão a se tocar. Você, Julinha, foi alfa e ômega. O auge do amor e o paroxismo da dor. Sem você eu não teria me tornado este que sou agora. E, por isso, preciso mesmo te dizer: Eu te detesto por isso!

                                                           Rô.


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