O escuro depois do escuro

Leandro Resende

Dois casais e outras três pessoas desacompanhadas deixam a sala de execução. Em uma das cadeiras azuis da primeira fila, um lenço parcialmente corroído por lágrimas. Selma fica inerte, esticada na corda. O corpo balança lentamente até parar. A pele do pescoço, onde a corda pressionou e esmagou os ossos, rasgou. A cabeça pendeu para um dos lados – e os olhos estão semi-abertos.

Os óculos ficam no chão, ninguém pega. Uma lente se soltou da armação. Próximo, forma-se uma poça de urina de Selma.

A sala começa a feder urina. 

Na sala ao lado, Grick e George, funcionários do Departamento de Justiça e Cidadania de Battle Creek, lancham.

“Em 30 minutos já é a próxima execução e nada de retirarem esta moça”, diz Grick. “Ela urinou pouco, viu?”

“É.”

“Agora vai ser um gordão. Esse vai mijar muito. Que apostar?”

George sorri, retornando rapidamente a sua seriedade. Não diz nada.

“Essa porcaria de ficar matando gente pobre, feia e fudida me deixa mal”, fala Grick.

“Também.”

“Viu essa aí, morreu fácil, né?”

“Sim.”

Silêncio longo.

Os dois comem pão seco e bebem chá quente.

“Fiquei com dó dela”, diz George.

“Também.”

“O que ela fez, você sabe?”

“Não.”

“Eu prefiro não saber.”

“Eu não sei pra onde olhar quando estou lá em cima. Se vejo o corpo cair ou se olho para os familiares.”

“Eu olho para dentro de mim.”

O pão acaba. Tomam apenas chá em silêncio e olham os dois peritos que retiram o corpo de Selma. Outro, um branco gordo e com braços tatuados, espera os peritos terminarem fotos e medições. Os peritos autorizam e o homem forte levanta e solta o corpo dentro de uma urna de ferro. Ela fica pequena e desajeitada. O tatuado pede ajuda a um dos peritos para levar a urna e todos vão embora.

Ajoelhada, uma senhora limpa a urina, que já fedia.

George a chama e pede: “Posso ficar com esses óculos?”

“Pode sim.”

Ela leva os óculos até ele e sai.

Começa a chegar pessoas na ‘sala de visitas’ – como é conhecida. Olhares soturnos, prestas a desabarem em lágrimas. Soluços contidos. Um jovem, gordo e branco, reza. A sala lota. Escoltado por três soldados, o gordo entra algemado nos pés e nas mãos, uniforme azul marinho. Com o olhar de quem vai morrer, vê o filho. O jovem desaba em choro, quer dizer algo, gritar. Não consegue. Diz: “pai”. Tudo é muito difícil para todos.

Silêncio.

“Vamos acabar com isso logo”, diz George em voz baixa para Grick.

“Sim.”

Aperta o botão, o alçapão abre, o corpo cai, um estalo e um murmúrio, vários choros. Os soldados fecham a cortina e a família sai, aos prantos.

Silêncio longo.

“Outro chá?”

“Sim.”

“Olha lá o tanto que ele mijou.”


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