O lado escuro da alma

Daniela Pacheco Costa

5:05. Como em um pedido de socorro. O relógio digital marcava cinco minutos depois das cinco horas da manhã e ela abriu os olhos repentinamente. Cansados, pesados. Sem se mexer, olhou ao redor, e custou a reconhecer seu próprio quarto. O cheiro ácido e úmido que restou do sonho ainda remetia à imagem anterior.

Levantou, já que logo não teria muito tempo. Com os pés gelados e descalços foi até a cozinha, encheu um copo com água, sentou-se no sofá da sala, acendou um cigarro e parou. Não, eles não tinham rostos, pelo menos ela não os enxergava. Apesar de parecer distante a imagem tinha um sentido familiar.

Era uma imagem que retornava, sonho após sonho, dois homens e uma mulher. Sentia que eles se escondiam sob suas roupas, um pouco antiquadas demais, mas que ia ao encontro de seus próprios gostos. Aquela imagem… parecia se movimentar, movimentos densos e ritmados, tanto quanto transgressores. A própria distancia entre eles sublimava uma aproximação. O que a perturbava era não enxergar seus rostos.

– Putz, sete e quinze, já!!!! – sempre atrasada, até quando tinha tempo.

Trocou de roupa, engoliu um café passado na noite anterior e foi para a rua.

Fazia 3 meses que procurava emprego e desde então, após uma semana que dedicou a si mesma, vagava por restaurantes e bares a procura de uma oportunidade. Não adiantava, era o que ela gostava de fazer: servir as pessoas e, quem sabe, descobrir um pouco sobre elas. Sempre tinha alguém para lhe contar alguma alegria, frustração ou quem sabe algum segredo, capaz de ser revelado apenas para desconhecidos que são vistos apenas uma vez. Acumulava boas histórias e sonhava com elas como sendo suas.

Era uma moça recatada que se permitia muito pouco, chamava-se Dakini. Sua mãe dizia que seu nome remetia a uma deusa tibetana, que parecia significar a clarividência produzida nas mulheres pela força da dança. A dança, sua outra paixão. Havia sonhado por anos, tornar-se bailarina profissional, mas sua persistência não era das mais invejáveis, e não tinha vergonha em assumir que aquela dedicação não cabia a ela, preferia sonhar.

Vinte cinco anos, nenhum namorado e uma coleção de foras e frustrações. Conhecia mais o sofrimento do que o gozo. Talvez ele fosse seu próprio sofrimento, pois era a única coisa que tinha. Às vezes beirava a ingenuidade, inclusive sobre si mesma. Todas as suas efêmeras relações eram marcadas por um martírio contínuo, destilado em horas de choro.

Quase não saía, quase não tinha amigos, a coisa mais transgressora que fazia era fumar cigarro, companhia que adquiriu com as colegas do antigo restaurante no qual trabalhou. Fora isso, permitia-se algumas vezes dançar um pouco em uma boate obscura, no centro da cidade, mas apenas enquanto nenhum cliente ainda estava lá.  

Uma vez por mês ia ao bar, pois Salazar, um antigo vizinho e grande amigo do seu falecido pai, trabalhava como gerente. Sentia-se acolhida lá.

Naquela noite, depois de mais um dia batendo perna, resolveu visitar Salazar, um homem rude, que estava sempre bêbado, e por quem Dakini tinha um sentimento que misturava pena e ternura. Às vezes se perguntava o porquê se identificava tanto com Salazar. Ele não era propriamente o que se pode chamar de amigo, mas era o que ela tinha; e sua atitude imbecilmente autoritária a remetia para seu pai, um militar reacionário que morreu na cadeia acusado por um estupro. Dakini nunca acreditou na veracidade da história que lhe contaram.

Subiu as escadas de madeira velha e com paredes roxas que levavam para o bar. Salazar estava do mesmo jeito de sempre, rosto avermelhado e olhos fundos, esperando que alguém aparecesse com vontade de entornar uma dose.

– E aí? – resmungou Salazar, – veio fingir que está se divertindo? Já te falei que enquanto você insistir nessa mania de ser antisocial, dançar sozinha, e correr para casa quando as pessoas começam a chegar não vai te levar a lugar nenhum.

– Tudo bem com você? – respondeu Dakini, fingindo ignorar o que ela sabia ser verdade.

– Bem melhor agora que você chegou. Principalmente porque atrás de você vieram mais dois, que pela cara parecem ser daqueles que irão consumir para valer.

Dakini virou-se e viu dois homens que haviam acabado de sentar em uma mesa. Um mais velho, cabelos grisalhos, quase bonito no auge do que parecia ser uns cinqüenta anos. Tinha um ar arrogante apesar de suas roupas despojadas. Vestia um suéter triangular e um sapato de bico fino que arrancou uma gargalhada interna dela. Ao lado do homem estava um jovem que, contrastando com o mais velho, vestia um terno alinhado, cujas mangas, levemente curtas, denunciavam que não o que lhe cobria não lhe pertencia. Podiam ser pai e filho e até mesmo namorados, mas esta hipótese definitivamente não passou pela cabeça de Dakini.

O mais jovem parecia ausente, pensativo, com o cabelo todo penteado para trás demonstrava quase não estar ali, e sua ausência deixava escapar modos de uma vulgaridade incondicional.

 O homem de cabelos grisalhos balançou a cabeça para ela, numa mistura de cumprimento e afirmação, e uma excitação estranha tomou conta do corpo da moça.

Dakini ficou ali, sentada no balcão, olhando o movimento das pessoas chegarem, tinha vontade de dançar, mas seu jeito introvertido avaliava como excessivo fazer isso ali, com tantas pessoas que já se aglomeravam ao redor das mesas. Enquanto isso, pensava nas palavras de Salazar, e sabia o quanto ele tinha razão. Talvez fosse saudável, ao menos uma vez, permitir-se a diversão, mesmo que sentada no balcão do bar.

O homem não parava de observá-la, e Dakini começava a sentir-se hipnotizada por olhar tão assertivo.

– Acorda, minha filha!!!! – gritou Salazar, ao mesmo tempo que socou o balcão.

– É o seguinte, aquele coroa ali, só tá de olho em ti, não sei quem é, nunca vi, mas talvez seja a tua chance de sair dessa depressão que é a tua vida.

– Eu não sou depressiva, Salazar! Só gosto de me resguardar!!!

– Resguardar? E tu lá sabe o que é isso? Só sabe o que é se resguardar quem já viveu algum dia. Toma aqui ó, o coroa mandou pra você beber, ele tá pagando. Aproveita, é gin com tônica, parece um suco de limão.

Ela estava gostando da situação, da atenção, e resolveu aceitar. Bebia apenas uma taça de vinho de vez em quando, na sua casa, quando cozinhava uma massa ao molho funghi que fingia servir para suas visitas. A brincadeira logo cansava, e ela não passava disso.

O primeiro gole queimou, mas queimou algo mais que sua garganta, só não conseguiu identificar o que. Dois, quatro, infinitos goles; mais uma dose. Na metade do segundo copo já se sentia leve e isso refletia no seu semblante. Já cumprimentava as pessoas que passavam, mas ruborizou quando viu o grisalho aproximando-se. Seus passos eram firmes e quando falou, sua voz era gentil.

– Olá senhorita, gostaria de convidá-la para se reunir comigo e com o meu filho.

Muda, estática, sentiu um calor que começava no início dos seus fios de cabelos.

– Eeeerrrrr, huuummm, cof, cof, cof, eeeeerrrr….

“Desembucha, minha filha” gritou Salazar, que do outro lado do balcão assistia a tudo como se fosse uma peça de teatro.

– Olha, meu senhor, ela está com muita vontade de sentar-se com você e seu filho, mas a moça é um pouco tímida, mas ela vai sim, não é mesmo Dakini?!?!?!?

– Vou sim – sorriu Dakini, logo baixando a cabeça de forma quase angelical.

E foi. Conversaram, gargalharam, e apesar de o jovem quase não falar, tinha um humor sarcástico que evidenciava tanto nos gestos quanto nas poucas palavras que emitiu. Dakini aos poucos foi se soltando. À medida que o gin entrava seu sorriso se alargava.

E dançaram. Os três. Dakini com um, Dakini com outro, Dakini com os dois. Dakini na ponta, Dakini no meio. Sua cabeça girava, e para não girar a cabeça, rodopiava o corpo.

 

*****************

 

O barulho de chicotes ainda estalavam no seu ouvido. A parede era vermelha como sangue. O tapete preto, assim como o sofá, o único móvel na sala. Das velas espalhadas pelo canto vinha a única iluminação. Seu corpo inteiro doía, tanto quanto ardia. Ela estava deitada no chão, não lembrava onde estava, nem como tinha chegado até aí. A imagem dos seus sonhos reacendeu sua memória por um milésimo de tempo, para logo em seguida sumir. Ia e retornava. Uma música. Conhecia bem, seu pai sempre colocava para ela escutar: “Venus in Furs”, daquela antiga banda de nome estranho Velvet Underground. Veludo. Estava coberta por um pedaço de veludo carmim e vestia botas de couro com um cano tão alto que cobria quase toda a sua perna.  

 Descobriu que nada era como na noite anterior. Mas como havia sido a noite anterior? Onde havia estado? Aquela angústia ela já tinha jogado na lata de lixo de uma esquina qualquer. Não saber talvez fosse apenas uma questão de bom senso.

Apesar da dor sentia o êxtase. Lembrou dos rostos, inclusive do seu. Tocou seu corpo, escorregou a mão pelo ventre, estava nua. Aquelas roupas. Velhas e antiquadas. Escondiam quem era. Era ela. Ela havia estado lá, o tempo inteiro, talvez a vida toda. Seu desejo sempre foi deles. Agora sabia quem eram. Agora conhecia o seu gozo. Sabia quem era.

Anúncios

%d blogueiros gostam disto: