offret

André de Leones

 

O monge contorna o muro externo do mosteiro carregando um balde vazio. Ele faz isso todos os dias. Enche o balde com água e sobe a colina que fica atrás do mosteiro. O monge é muito gordo, e a subida, íngreme. Ele sobe com dificuldade, carregando o balde ora com a mão esquerda, ora com a mão direita. Para diversas vezes no caminho, coloca o balde no chão e recupera o fôlego. Às vezes, olha para baixo, a terra monótona e desolada a perder de vista: não há construções, árvores ou sequer ruínas na planície diante do mosteiro. O chão é esbranquiçado e muito acidentado. Os pés do monge têm bolhas que, às vezes, estouram. Mesmo assim, ele prossegue. Quando, por fim, atinge o topo, deposita novamente o balde no chão e agradece a Deus. No topo, não há nada além de uma árvore seca. A árvore seca pronuncia-se para o lado oposto, como se desse as costas para o mosteiro e a quem vier de lá. O monge se aproxima e despeja a água com cuidado ao pé da árvore. Em seguida, faz uma oração. No refeitório, sempre há alguém pronto para lhe dizer: “Por que se ocupa disso? É inútil.” Ou: “A árvore está morta. Conforme-se. Cuide do que está vivo.” Ele apenas sorri. Todos os dias, por anos a fio, sobe a colina com o balde cheio de água a fim de regar a árvore seca. Mais cedo ou mais tarde, pensa, se Deus assim permitir, ela florescerá. Certo dia, um dos monges o encontra caído na colina, a meio caminho do topo. Está morto. O balde está próximo do corpo. A água escorreu toda, enlameando a passagem. Então, o monge que o encontrou sobe correndo até o topo da colina, histérico, agitando os braços em direção ao céu, crente de que irá se deparar com a árvore explodindo de vida.


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