Pão e Tulipas

Susana Fuentes

Contra o vidro embaçado do guichê, deslizo o dedo. Como se tentasse adivinhar, entre tantos destinos possíveis, um que eu pudesse escolher. Perdida, e pela primeira vez, depois de tanto tempo, sozinha. E este silêncio. No nosso tempo de namoro ainda alguns silêncios, sim, mas desde o casamento, e os meninos… com Anselmo minha vida nunca mais foi minha, mas nossa. Ao longo desses anos todos, a nossa vida me distrai. O ônibus da excursão partiu, nesta parada se esqueceram de mim, como pode? Foram-se, mas vão voltar já, já, assim que derem por minha falta. O guia da excursão não deveria contar os passageiros? Bebeu umas e outras. Deve ter errado a conta.  Bem que o meu mais novo, o Paolo, queria me dar um celular, mas eu disse que era bobagem, o Adriano deve estar com o dele na mochila, liguei do posto, caixa postal, talvez tenha adormecido com o minúsculo Ipod nos ouvidos, esses aparelhos. Anselmo nunca atente o celular, mas os meninos…  

Quanto dinheiro tenho na bolsa? Não é muito, mas dá para entrar num ônibus de volta para casa. Afasto-me da janela do guichê, respiro, olho ao meu redor. A folhagem verde dos galhos recebe a brisa no alto das árvores, e na estrada o amarelo dos raios ofusca os olhos com pontos cor de prata. Quando voltar para casa será de uma vez: caio na corrente de roupas, xícaras, louça para lavar, carros, buzinas, hora do colégio, rápido, hora do café, abro a torneira, a esponja ensaboada, Anselmo, deixou o ovo queimar na frigideira, meto a mão no sabão, o gato lambe a água no ar… Não tenho gatos. Tinha um, quando criança, ele me ouvia tocar acordeão. Virava de patas para cima, respirava fundo e se espreguiçava nas lufadas graves dos primeiros acordes. E revirava os olhinhos de sono, dormia em nuvens, com o sopro dos trinados, cheios, agudos, tristes. Vamos os dois para o campo, eu dizia, você precisa das pedras, do riacho com seixos e peixinhos soprando bolhas, tudo que produz bolhas, na água da pia ele enfiava a cabeça sob a água para apanhar com dentadas as pequenas bolhas do fundo da xícara.

Umas férias cairiam bem. Vamos parar com essas ideias, melhor um bilhete para casa. Posso usar o telefone? Pergunto ainda no guichê da estação. Anselmo atende o celular: O que você fez! Agora o ônibus todo vai voltar por sua causa?! Fico em silêncio. Rosalba? Não se mexa!  Faça pelo menos uma coisa certa na sua vida, chegamos já. Alô? E desliga o telefone. Tiro o dinheiro da bolsa, e sorrio para o atendente, que já está noutra ligação. Ouço meu nome, de repente, no alto-falante da estação: Senhora Barletta, seu marido pede que permaneça onde está, o ônibus se encaminha para a estação, repito, o ônibus retorna à estação. Não me mexo, a mão continua estendida com as notas no ar, o sorriso no rosto, digo ao atendente meu destino. Recolho o braço. Na mão, agora, o bilhete. Pergunto-lhe, ainda: Vão me procurar aqui, posso deixar um recado? Sem dar muita importância ao caso, ele me estende a caneta. Escrevo: Veneza, vou a Veneza por um dia. Rosalba.

Agora, neste café, o chão de madeira, e o mar, posso ouvir sob os pés o ranger da tábua, das águas. As folhas no alpendre, na minha vida os ramos, de novo o silêncio. O que dirão, quando souberem o que fiz? Foi estranho, mas me senti tão inteira, e sem medo. Não tive dúvidas de que fazia a coisa certa.

Esse acaso, esse esquecimento… Não mais me espanto que tenham seguido sem mim. Eles estão bem, e quando se derem conta, poderão esperar mais um pouco até me verem outra vez. Volto já, mas antes… Se até agora eu deixava a vida passar, distraída, agora ela que me deixou passar, ela se distraiu de mim. Não pensei duas vezes, os dois nomes de cidades, lado a lado, dois destinos. A minha casa, molto carina, nossa cidade.  E Veneza. A cidade dos meus sonhos – agora, de repente, volto a sonhar – o lugar que faltava conhecer. O dinheiro na bolsa, só para a ida. E agora estou aqui, na ruela ao longo das águas. Neste café, algum tempo para sorver a paisagem. Uma breve introdução, primeiros acordes onde faço minha reverência, um ritual… Fiz o pedido. Pedi a salada e uma cesta de pães. Tenho esta maçã na bolsa. Mordo uma alface, rego o pão com azeite e na tábua a maçã recebe o golpe da faca.

E as crianças? Crianças, modo de dizer, afinal, dois moços grandes, que bonitos. Já vieram entediados na viagem. Queriam ir à praia, Alsemo colocou na cabeça que deveríamos conhecer os sítios históricos, na verdade seu amigo da agência de turismo queria fechar o pacote e o convenceu, afinal. Mas não importa, gostei de ver as escavações, mas tirar aquelas fotos segurando as colunas como Sansão, já foi demais. Anselmo divertiu-se na demonstração de força, não creio que se parecesse muito com Sansão. Ele sim, uma criança, o Anselmo, e também o seu amigo da agência de turismo… com as canecas de cerveja na mão vão longe se fazendo companhia. Qualquer que seja o lugar, não faz diferença, divertem-se de qualquer modo. Deixemos as crianças.

Saio pela porta e ouço o ranger das águas no assoalho, abandono a cadeira onde acabo de me esquecer da vida. Caminho um pouco mais e todos os meus sentidos me empurram até a lojinha entre as flores. Vejo um senhor dentro da loja, é o florista.  Corta o alho, a ferrugem das cascas, e come pedaços inteiros, meu pai também cortava assim o dente de alho, comia pedaços crus ou bebia o chá com mel e limão, tinha uma saúde de ferro, a mistura cura qualquer garganta. Deslizo o dedo contra o vidro embaçado da porta. O frio aqui fora ainda é azul com aquelas folhas de prata. Olho para o velho através do vidro, minha mão alcança a maçaneta avermelhada na madeira. Sozinho na floricultura, seu olhar solto descansa no calor das lascas do assoalho coberto de folhas.

Sinto um leve roçar na ponta da saia. Um gato enorme. Ele para e espera que eu diga alguma coisa. Olho para você, meu gato cor de riga, descansado, sabe espreguiçar-se. Num salto, vai parar no alto da janela. Quer que eu veja este cartaz aqui? Aponta-me um aviso na folha escrita à mão. Preciso de uma florista. Ora, meu gato cor de riga, deixe estar que eu também, noutro salto, abro a porta. O cartaz já está nas minhas mãos, pode contratar-me, digo ao homem. E quando quer começar? Quando o senhor quiser… Agora mesmo, agora mesmo.  E a senhorita…? Rosalba.


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