Zabriskie

Daniela Mendes

 Leôncio desenhava um vampiro numa folha avulsa. Lá estava ele, calculando cada detalhe do corpo e da vestimenta para este que seria um anti-herói. As palavras vinham na medida em que os traços se definiam no papel: um sanguessuga que vivia através dos tempos em desventuras com as reencarnações de sua amada. Definia o [então] adolescente a sua criatura.

Na escrivaninha, um livro de história da arte e uns dois volumes da enciclopédia Barsa o ajudavam na composição de ZABRISKIE. Sim, era assim o nome do seu personagem. Não por causa de Michelangelo – este ele só conhecia da renascença e de capelas, mas pelo Pink Floyd que estava no volume máximo da vitrola. Para Leôncio, deveria ser a música do topo das paradas de sucesso durante os sete dias da criação. E já que seu personagem estava presente neste início dos tempos, como um demônio menor de uma música de Raul Seixas, ele achou que este nome era mesmo perfeito.

Rabiscava seu personagem e, entre o intervalo de uma música e outra, sua mãe deu um soco na porta pedindo para abaixar o volume do som. Pedido prontamente ignorado, com exceção daquele instante em que ela insistiu com batidas sucessivas. Ao deter-se para pensar duas vezes antes de mandar a mãe à merda, o [então] rapaz percebeu que se tratava da visita de Rosário.

O mundo inteiro devia parar quando Rosário chegava. Contudo, só por força de expressão. Pois nem tão prontamente o rapaz assim fazia. Talvez, numa das reencarnações da amada de Zabriskie ela devesse adquirir algum poder especial. A amada de Zabriskie pararia o tempo… Guardou a idéia… Correu para abrir a porta, enfim.

…destrancou a porta rapidamente e puxou o pulso da namorada para juntar o corpo dela ao dele. Sua mãe bem que tentou aproveitar aquele instante deslanchando uma série de reclamações. Contudo, não havia brecha nem tampouco sentidos que os desviassem do beijo. Quando se desgrudaram, a mãe já havia se retirado e o disco do Pink Floyd estava no fim.

A namorada deitou-se na cama em posição fetal. E Leôncio trancou a porta dando uma passada rápida pela escrivaninha a fim de esconder seus esboços antes de se juntar a ela.

(Uma lagartixa, do teto, vendo-os deitados um de frente para o outro na tal posição fetal, se admiraria em ver formado pelos corpos um desenho de coração na cama).

“O que foi?”. Rosário tinha uma melifluidade de coisa perigosa que procura colo. “O que é isto?”, a testa enrugada… Leôncio não sabia do que ela era capaz… Naquela idade, provas de amor eram provocadas a todo instante. Ela materializava a verve segundo a qual a ameaça doía mais do que a agressão levada a cabo. Quando estava na casa de Leôncio, andava sobre o soalho sem despertar a contumaz rabugice das madeiras velhas. Não o fazia como uma entidade etérea. Mas como o mais astuto dos ladrões. Uma espécie de rã com uma língua enrolada em armadilha, pronta para esmagar mosquitos distraídos. Os olhos de peixe com pálpebras e cílios causavam-no arrepios. Ela já havia conquistado nele o medo de abandono.

Leôncio lhe mostrou alguns poemas como se desse pouca importância ao fato que ia tomando forma. E ela sentia-se impotente em criticar. Pois ele quase nem lhe beijava a boca e aquele beijo longo foi mesmo uma surpresa com a qual ela nem mesmo sabia o que fazer.

Leôncio gostava mesmo era de pegá-la de surpresa. Uma vez, agarrou sua vagina e arrancou sua calcinha com tanta força que deixou um risco roxo na coxa… Frequentemente até lhe batia na cara, mas uma vez deixou hematoma com marca certa de dois dedos. Foi quando passaram o primeiro fim de semana juntos, pois a mãe dela não poderia ver aquilo.

Rosário tinha o maior poder de todos: o poder da vítima dentro das presas de seu sequestrador. Quando chorava, ou porque ele lhe batia, ou porque ele a pegava com brutalidade, ela o dominava completamente e o conduzia para fora de todas as dimensões. Depois o conduzia de volta sem a mínima consideração para com a materialidade do corpo de Leôncio. Ele tentava se manter forte, para que numa dessas ele não se dissolvesse no espaço. Pelo menos, era assim que ele ficava tentando se concentrar.

Leôncio era silencioso e elegante. Quando não estava empalhando um animal, tocando violão, meditando à vitrola, cozinhando, lendo filosofia ou preparando um corpo que soçobrou (como ele gostava de dizer em dias mais humorados), ele podia ficar horas em silêncio admirando Rosário. Ela escrevia poesias sobre ele na escrivaninha… “Ele é como o gato que observa a borboleta sem poder alcançar”. E juntava os cabelos convencida de ser estudada, mostrando o pescoço delgado de forma a oferecer suas veias a ele. Porque ela sabia o quanto o [então] namorado apreciava histórias de vampiros românticos.

Rosário sorveu as palavras de Leôncio, mastigou o verbo e cagou em algum canto insondável. Fazia-se de estátua e trocava de máscara o tempo todo para confundi-lo. Se ela tinha algo dentro da carne era dele há muito roubado. Mas Leôncio não se atrevia pedir de volta. E, em certos momentos, era até mesmo melhor fazer de conta que não estava em sua própria casa.

Como representar demandava muito esforço, de vez em quando a mandava embora aos berros. E apesar de muitos desses fatos serem costumeiros, naquela tarde, eles sentiam a presença de algo sinistro que não podiam evitar.

De repente, Leôncio se cansou do jogo dos amantes e revelou os planos relacionados a Zabriskie. Rosário se sentiu honrada como uma noiva. Leôncio então agarrou seu maxilar e mais uma vez se perdeu na escuridão dos olhos dela. A barriga de Rosário gelou e ela podia jurar que o tempo parou por um décimo de segundo. Exato instante que antecedeu o momento que ele a empurrou da cama fazendo-a cair de bruços no chão. Rosário se arrastou para longe dele e disse entre soluços de choro: “Tem algo errado com você. E não tem nada a ver com essa sua profissão de mexer com mortos. É o seu coração. Ele é oco e isso te faz louco”.

Aquelas palavras o marcaram profundamente. De fato, até hoje, Rosário sempre se lembra de quando terminou com Leôncio. Formigas também passavam alheias pelo chão. E Zabriskie pensava que sua mãe tinha razão, não era bom levar comida para o quarto.

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