A lenda

Lúcia Bettencourt

 

Fui ator de cinema, contracenei com belas mulheres, cobertas de jóias e vestidas em longos de cetim. Luvas, piteiras, anéis de brilhante, elas usavam todas as insígnias das divas. Os cabelos variavam: ruivos e ondulados, fartos, caindo sobre ombros arredondados. Ou curtos e lisos, em cortes sofisticados, em cima dos quais colocavam-se apliques entumescidos e fofos, imitando altos coques armados de laquê.

Contracenei com homens, também, sofisticados, vestindo casacas ou elegantes ternos. Com eles eu mantinha uma certa reserva. Conservava-me arisco, distante, e, confesso, um pouco enciumado. Não queria a concorrência deles para meus olhos verdes, que tanto atraíam as caricias femininas.

Eu passava de mão em mão, de estúdio em estúdio, numa orgia entre almofadas e luzes. Minha vida parecia um voluptuoso sonho feliz.

Meu infortúnio começou quando, no estúdio ao lado do meu, as filmagens de uma história de Poe começaram. Toda minha natureza selvagem e inquieta começou a se rebelar. Meus instintos afloraram quando descobri a presença negra e inquisitiva de um dos atores. Ele chegava com uma corrente dourada presa a um de seus tornozelos, faiscando. Aquilo atraía meus olhos que se estreitavam, observadores. Meu corpo todo se eriçava, e eu me ajeitava em posição de alerta, com a respiração mais curta, os ouvidos atentos. Logo em seguida, as portas eram fechadas. Dele só sobravam um ligeiro aroma no ar aquecido pelas lâmpadas e um ou outro grito que somente eu parecia escutar.

Cada vez mais nervoso, consciente de sua presença no estúdio vizinho, deixei de me concentrar. Perdia as deixas. Vagueava sem rumo por entre os equipamentos, sumia na hora das cenas. Mesmo assim eu continuava adorado, mimado, afagado. Quando condescendia em atuar, todos elogiavam meu porte e garbo, minha silenciosa expressividade, meus olhos que falavam através de seu brilho e fulgor.

As cenas no estúdio ao lado continuavam. E foi então que a maldita frase começou a penetrar paredes, insinuar-se pelas frestas, ressoando, ressoando, na sua monótona repetição: Nunca mais…

Era como o soar de dobres, na sua pausada insistência, anunciando o fim. E o fim chegou no dia em que, encontrando a porta do estúdio ao lado aberta, me esgueirei, sem ainda saber bem o que faria, mas já com a consciência de que seria inevitável.  Escondido entre almofadas, esperei a chegada dos atores. Ele foi um dos últimos a chegar. Negro, reluzente, soltando faíscas toda a vez que movimentava a perna acorrentada, ele pressentiu minha presença e assumiu uma postura assustada, inquieta. Sua fala subiu um tom, tornando-se mais aguda, quase metálica: Nunca mais!, ele gritou. E repetiu: Nunca mais…

Sem tirar os olhos dele, preparei meu corpo para o inevitável. Era minha natureza que me comandava, meus instintos básicos que tomavam conta de meu físico. Atirei-me em cima dele com a precisão de um raio. E foi em frente às câmeras que ele tombou, ensangüentado. O sangue empapando seu pescoço rasgado e ele ainda repetindo: Nunca…. Eu, vitorioso e desgraçado, com um olhar desafiante para  as câmeras, um olhar que ia muito além das máquinas e que chegava a seus operadores, e que, um dia, chegaria a todos os que, mesmerizados, assistissem àquela projeção.

Fiquei conhecido como o gato que comeu o Corvo de Poe em frente às câmeras. Uma celebridade durante dois dias. Um ator que se desgraçou por seus instintos, mas que não se arrepende de ter cedido. Agora sou uma lenda.


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