Bichos

André de Leones

 

— Você vai ser o meu bicho — eu disse sorrindo para ela, que me encarou como se não me visse de fato, como se olhasse através. — Qual é o seu nome?

— Suzane.

Primeira semana de aula, o corredor lotado: ela quase gritou. A boca vermelha aberta enquanto repetia o nome (não entendi da primeira vez). Escuro lá dentro. Escuro e vermelho e escuro.

Ela não era grande ou boazuda. Quase o contrário disso, o corpo bem proporcionado, mas de uma beleza comum, a pele muito clara, os olhos sempre parecendo se fixar em algum outro lugar mesmo quando olhava diretamente para mim.

Um mini-iceberg deslizando pelos corredores. Mais um.

Eu me senti repentinamente cansado. Mesmo assim, pensei que fodê-la não seria tão má ideia. E tratei de deixá-la ciente disso, embora não com essas palavras (obviamente).

Suzane permaneceu ali, comunérrima, ausente, enquanto eu falava isso e aquilo e não sei mais o quê. Não se constrangeu ou me cortou. Quando terminei, ela comentou qualquer coisa sobre o namorado. Também perguntou onde podia conseguir um adesivo da faculdade para colar no carro. Mudei o foco da conversa, disse que ela podia procurar o Centro Acadêmico para conseguir o tal adesivo. Ela agradeceu e disse que precisava entrar. Eu disse

— Por nada, depois a gente se fala

e saí caminhando pelo corredor dando pequenos socos na parede, no ritmo dos meus passos.

Lá fora, encontrei com um colega do segundo período sentado a uma mesa do boteco. Bebia cerveja. Eram oito e quarenta e dois da manhã. Estava frio.

                — Quem é a caloura com quem você tava conversando? — ele perguntou tão logo eu me sentei. — Bonitinha.

                — Você viu? Chavequei de leve, mas tem namorado. Foi logo dizendo isso. Não assim, mas disse.

                — Gente boa?

                — Dá pra comer.

                — Não foi isso que eu perguntei.

                — Mas foi isso que eu respondi. Que diferença faz?

Ao redor, a galera do terceiro e do quarto períodos e de outros cursos, a maioria bebendo cerveja. Era muito cedo. Estava frio. Cumprimentei uma menina acenando com a cabeça, como se dissesse: “E aí?”. Ela estava encostada em um carro e bebia Pepsi. Eu não sabia quem era.

                — Quando foi a última vez que você bebeu Pepsi? — perguntei ao meu colega, sem desviar os olhos da menina.

Ele bem que tentou, mas não conseguiu se lembrar.


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