Cidade de Areia

Marcos Vinícius Almeida

 Tinham começado a construção de um muro aos fundos da casa, mas a obra está parada há anos por falta de dinheiro, permanecendo naquele lugar o esboço do muro, um monte de areia, duas pilhas de blocos, feixes de vergalhões, pilhas de tábuas e entulho. Tão logo chega da escola, Ivan se debruça sobre aquelas tralhas como se mais nada importasse. Passou os últimos três dias dedicados a construção da cidade de areia, cavou túneis profundos, fez conexões intricadas entre os túneis, ergueu muralhas reforçadas com cacos de blocos e tábuas. Separou dezenas de potes de vidro durante semanas, acomodados em um saco no terreno baldio detrás do muro. Em alguns dias (Ivan supunha, já que todo ano nessa mesma época a coisa se repetia) os bichos vão infestar a rua, rebater contra a lâmpada de mercúrio e as janelas de aço e será hora de recrutar os ocupantes da cidade de areia. Haveria besouros dos mais variados, grandes com cifres protuberantes, pequenos e roliços, uns mais escuros outros mais claros e esverdeados. Cada qual teria seu lugar e função específica na cidade de areia. Ao retocar os túneis, construir cercados com pequenas estacas, Ivan quase os vê: dois grandes besouros gladiadores na arena central da cidade de areia, lutando ferozmente enquanto centenas de outros besouros assistem nas arquibancadas a batalha; besouros operários arrastando caixas de fósforo cheia de areia do interior dos túneis; besouros voadores patrulhando o espaço aéreo da cidade de areia contra a iminente ameaça de pardais mercenários e corujas assassinas.

 Ivan coloca o pote de vidro na mesa, aproxima os olhos curiosos e contempla a crosta negra azulada, o conjunto de três pares de patas se mover sem avançar, dependuradas na interseção entre o piso e a parede transparente e cilíndrica. O besouro prossegue patinando na superfície, naquele esforço inútil e, às vezes, regredindo ou escorregando o corpo em semi-curvas e semi-círculos ziguezagueantes, ou fatalmente cai com o dorso fixo à base do pote, as patas agitadas no ar solicitando ao garoto que balance o vidro e resolva o empasse. A mãe do garoto não compreende. Várias vezes advertiu; nada desses bichos nojentos em casa, nada de brincar com esses bichos nojentos cheios de piolhos e doenças. Diante de tais dizeres, Ivan, claro, não faz questão de explicar a verdade e com sabedoria adota o silêncio. A mãe, dedos grossos sempre ocupados, cansaço nos olhos e cabelo preso, é incapaz de penetrar na beleza dos movimentos inúteis, do esforço sem moeda de troca.

 Agora, Ivan enrosca a tampa (com três pequenos furos) na boca do pote, arrasta a cadeira com cuidado até próximo ao guarda-roupas, sobe na cadeira e esconde o pote de vidro detrás de uma caixa de sapatos.

 Seria impossível apanhar a quantidade de bichos necessária a cidade de areia sem que ela notasse. Um único besouro patinando no interior do pote de vidro é fácil de esconder; centenas de besouros em dezenas de potes, quantidade necessária para povoar a cidade de areia, é complicado. Juntá-los aos poucos, jamais daria certo. Não há esconderijo seguro o bastante  diante da capacidade da mãe  em desvelar segredos e conspirações. A única solução é apanhar os bichos e ocupar a cidade no meio da madruga, quando a mãe estiver dormindo.

 Nas noites seguintes, Ivan conviveu com a expectativa de ouvir os estalos provocados pela chegada dos habitantes da cidade de areia. Suponha ouvir algumas vezes, seja quando fosse uma mariposa noturna ou, como supôs em umas das noites, quando os estalos da janela vieram em intervalos longos, depois tão curtos que Ivan imaginou uma nuvem imensa de besouros pronta a romper as paredes da casa; ao que era, na verdade, uma chuva de verão com gotas muitas grossas por iniciar.

 Por isso, agora, quando os estalos na janela são verídicos, Ivan não vai de imediato conferir. Descrê dos sinais mesmo que saiba de antemão que são sinais genuínos. O ceticismo só é quebrado quando, ao abrir a janela, três ou quatro besouros invadem o quarto, centenas voam em espiral assimétrica  em direção a lâmpada de mercúrio, alguns se chocam contra a lâmpada e vêm fazer companhia a outra centena deles que se arrasta pelos paralelepípedos, uns de ponta cabeça, outros presos aos tuchos de gramas que brotam das frestas entre as peças do calçamento.

 Os habitantes da cidade de areia haviam chegado.

Ivan sabia que não adiantava se precipitar. Agora, era esperar a mãe cair no sono e dar sequência ao plano. Recolher os besouros que invadiram o quarto, devolver a multidão e fechar a janela. Sentar-se na cama e aguardar. Por volta de duas horas da madrugada, Ivan pega sua lanterna, abre a porta do quarto, atravessa o corredor, a cozinha, vai até o quintal, do quintal ao muro, detrás do muro encontra o saco com os potes de vidro, então, começa as viagens, três potes de cada vez; vão sendo acomodados ao pé do monte do areia. A classificação dos besouros é feita na hora de recolher. Um ponte de operários robustos, outro pote com gladiadores de chifres protuberantes, outro pote com voadores vorazes, outro com minúsculos besouros roliços e suas múltiplas funções. Ao final, dez viagens e trinta potes cheios de besouros se retorcendo uns sobre os outros, distribuídos ao redor da cidade. Com a lanterna em punho, Ivan começa o trabalho de enquadrar os ocupantes nos seus devidos postos. Nos dois túneis maiores que desembocam na torre central da cidade, despeja dois potes de besouros roliços, fecha as saídas com placas de madeira, afinal, os pequenos poderão cavar seus próprios túneis e dar vida ao coração da cidade. Nos fossos laterais, equidistantes, coloca os voadores e alguns já começam a patrulha, mesmo que de forma desordenada; os gladiadores vão para arena, o restante é solto nas cavernas e nas ruas da cidade de areia livremente. Ivan se acomoda em um bloco e ilumina a cidade e seus habitantes com a lanterna em silêncio, contempla o movimento dos besouros; por vezes, se aproxima, como agora, que dois gladiadores resolveram começar um enfrentamento ou quando um dos voadores vem no rumo da lanterna e termina  enroscado na sua camiseta e é preciso devolver o besouro à cidade. De repente, quando percebe o céu esboçar o amanhecer, Ivan esconde os potes de vidro e vai dormir antes que sua mãe acorde.

Conseguiu repetir essa brincadeira na noite seguinte, mas não houve uma terceira vez. Na tarde do segundo dia, um pedreiro veio até a casa, a pedido da mãe de Ivan, para fazer um orçamento referente ao termino da construção do muro. Quando percebeu a quantidade descomunal de besouros habitando o monte de areia, contou a mulher; ela, por sua vez, retrucou:

 “Depois que meu marido morreu, esse meu filho não regula mais”.

 Com ajuda do pedreiro, um litro de álcool e alguns jornais, a mãe de Ivan ateou fogo na cidade de areia, nos besouros; enquanto o pequeno Ivan assiste tudo, ao longe, sem poder fazer nada.


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