Coelho

Mariana Vieira

 

Minha mãe era bonita. Sei disso porque é a primeira coisa que qualquer um que a conheceu me fala. O que com o tempo me fez acreditar que não compensa ser bonita daquele jeito, pois assim sendo, ninguém vai lembrar-se de elucidar suas outras qualidades. Principalmente para seus filhos, se você os tiver. E se beber margueritas demais, dirigir a 110 km por hora e eventualmente enfiar o carro numa árvore, e não estiver vivo para demonstrar suas qualidades.

Mas ela era mesmo. Bonita. Sei disso pelas fotografias, principalmente por elas, e pela quantidade de namorados que teve antes de me ter. Mas eu sei, sei melhor o que ignoravam, porque a beleza, aquele fascínio de pele viscosa e as combinações de mini-saia escondiam; mamãe era também um pouco louca. E não digo isso por conta das margueritas, do carro ( um Rabbit 63 conversível e vermelho) ou por ter largado meu pai, contra os protestos de todos,e ido trabalhar como garçonete, apesar do falatório.

 

É o jeito como ela assinava cartas. ”Meus progenitores únicos”, quando escrevia para meus avós.”Pra querida que preparou um útero pra mim”, quando escrevia para sua irmã mais velha. É o desamparo que eu me lembro, mesmo aos seis anos de idade, a gente sempre sabe. Minha mãe sabia ser espontânea, ou como diz minha vó, Lou só fazia o que queria. Uma vez, quando fomos num parque de diversões fora da temporada, ela convenceu o cara responsável pelos brinquedos a ligar o carrossel, só para nós. Lembro muito desse dia, porque não havia mais ninguém por perto, e o moço ficou ali do lado, rindo. Alguma coisa em minha mãe, talvez o sorriso, os olhos apertados, compeliam os outros a toparem suas ideias, satisfazerem suas vontades. E então falam sempre que ela é bonita, nunca louca, até o episódio da lagosta, pelo menos.

 

Quando foi trabalhar de garçonete, o lugar que pagava melhor era um restaurante de frutos do mar, a poucos metros da praia, feito de madeira imitando o convés dos navios, e no meio do salão, um enorme aquário marinho, onde a bicharada do mar ficava até que ávidos clientes fizessem seus pedidos. Mas tinha uma lagosta em especial, apelidada de “coelho”, pois sempre conseguia escapar da panela com pulos (incomuns para a maioria das lagostas, acho), e ia ficando. Isso quem conta é o velho Otto, cozinheiro lá por mais de 20 anos, bonachão e vermelho, muito vermelho.

Mas nada dura, e um dia, a “coelho” vacilou na escapada, e já estava na pinça, a meio caminho da cozinha, quando minha mãe, que atendia um mesa do outro lado do salão, se precipitou pra cima de Otto, e implorou para que ele não cozinhasse a pobre, que ela já era um mascote do pessoal, que ela já contava do apelido para os clientes, e que mais cedo já tinha visto crianças cutucando os vidros do aquário, chamando pela lagosta.

 

E então a coisa ficou confusa, e de alguma forma, que nem Otto nem ninguém me explicam até hoje, eu acabei com aquela foto de mamãe de minissaia, segurando a tal lagosta por uma cordinha, e com um relógio aparentemente cronometrando sabe-se lá o quê. Cresci olhando aquela imagem tão estranha quanto hipnótica, e nunca recebi mais do que respostas vagas ou sentenças que reafirmavam a beleza de minha mãe, sem nenhuma, porém que justificasse aquele desatino fotográfico.

Sim, era bonita. E igualmente louca.


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