Estela

Gerusa Leal

Agora estava ali, na mesa do restaurante escolhido, aguardando que ele chegasse.

– Estela.

– José.

Ela frequentou a faculdade como todos os jovens amigos de sua geração, foi chamada de esposa, teve uma filha, mas paixão mesmo, essa, só pela causa. Nada além dela a abalava. Nem a política a empolgava tanto. Até aquele dia.

Já era madura quando o viu pela primeira vez. Ele beijou-lhe a mão, afastou-se discretamente depois de cumprimentar e a olhava de longe.

Pousou sobre a mesa a pasta que trazia, sentou-se. De onde ela estava, via-lhe os olhos, acima de tudo. Ficaram ali, fingindo que conferiam suas anotações, enquanto os outros não chegavam para ocupar os seus lugares.

A reunião transcorreu normalmente, e sempre que o trabalho o exigia voltavam a se encontrar.

Mas essa era a primeira vez que se viam a sós, fora do ambiente de trabalho.

Então ele bebeu um gole do vinho e começou a fazer uma série de perguntas sobre sua vida pessoal.

Me casei duas vezes, militei em organizações clandestinas, mudei de casa frequentemente. Já mudei de cara, de penteado, de sorriso. Lentes de contato em vez de óculos.

Ergueu a cabeça para conferir a reação dele.

Tive vários nomes, mantive encontros secretos, transportei armas e dinheiro obtido em assaltos, aprendi a atirar, dei aulas de marxismo, participei de discussões ideológicas, fui presa, torturada, processada e encarei mais de dois anos de cadeia.

Ele disse que sabia disso tudo. Tinha seu dossiê completo. Nada daquilo lhe importava. Eram outras as coisas que queria saber sobre ela.

Não, Estela não era seu nome verdadeiro. Era Vilma. Por que não havia dito antes? Tinha medo. Medo de que ao descobrir quem ela era, se afastasse.

Esta revelação fez com que ele lhe segurasse a mão e a olhasse ternamente.

Ela desculpou-se por haver sido tão agressiva, precisava saber se ele se deixaria intimidar. Na verdade, foi presa, torturada e condenada à prisão por subversão, numa época em que fazer oposição aos governos militares era ser subversivo. Mas nunca participara de luta armada como afirmavam os tablóides.

Falou-lhe de onde gostaria de morar depois que tudo acabasse, que cumprisse sua missão. Uma casa simples, com jardim só de folhagens – detestava flores – que fosse no alto de uma colina, de onde se visse vastas extensões verdes.

O rosto dele estava meio oculto naquele ambiente à luz de velas. Mas os olhos, que sobressaíam no escuro, eram o que lhe chamava a atenção, lhe hipnotizava. Parou de falar e olhava ao redor como para reter na memória o cenário daquele encontro tão improvável quanto inconveniente, e fugir à influência do olhar que parecia encantá-la como a serpente ao sapo.

Uma mulher entrou no restaurante, sentou-se na mesa ao lado. Ela se sentiu desconfortável, teve receio de ser reconhecida. Confessou o desejo de ir para outro lugar.

Saíram.

No quarto do motel, a iluminação indireta e suave fazia-o parecer ainda mais pálido; depois sentiu-se envolvida por uma sombra doce, que cheirava a desejo e a morte. Não resistiu mais. E descobriu, desfalecida e pacificada, porque ele era conhecido como Nosferatu.

Despertou em sua própria cama. Ele não estava mais lá. O vento fazia as cortinas dançarem. A lua parecia imensa. Olhou para a rua e pareceu vê-lo caminhando lentamente pela calçada do outro lado, como apreciando os ares da noite.

Fechou as janelas. Voltou para a cama.

No dia seguinte, com um sorriso de zombaria, confirmou o encontro a todos os repórteres que a entrevistaram na coletiva após o debate.

Não se preocupe, tranquilizou-o depois. Quem acreditaria num absurdo daqueles?


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