“Eu te darei o céu”

Erwin Maack

 

Levítico.

Aquilo que jamais poderei fazer: comer alimentos que contenham fermento durante a Páscoa, vestir roupas feitas com tecidos mistos (linho com algodão), comer frutas de árvores com menos de cinco anos. Isso não é problema para mim, eu gosto de seguir regras. Elas sempre serão os sinais avançados da minha salvação. Fui autorizado pelo rabino a cortar a minha barba. Afinal de contas, ela é mesmo tão rala, quase invisível. Conversei também a respeito da alegria da música, do seu caráter misterioso, e dos efeitos que ela produz em mim. Quando canto, não gaguejo. Cantando, faço com que meus pesadelos desapareçam. O touro que sai de dentro do mar avança contra mim, bufando e apontando seus chifres, desaparece das minhas noites. Não acordo mais suando medo. O rabino recomendou que eu me afastasse do vício do onanismo.

Apresentei, como meus argumentos, os exemplos de Matisyahu e de Yitzchak Jordan, cantores livres da nossa comunidade, e a minha admiração pelo repertório de Mordechai Ben David. Desde então, além de estudar contínua e detalhadamente os nossos livros sagrados, eu me divirto cantando. Escolhi um padrão de músicas: as gravadas por Roberto Carlos. E, aos poucos, fui me transformando nele: uma cópia perfeita do nosso rei. Incentivado por Alexandre, meu amigo, cometo alguns shows semanais. E, a cada dia que passa, mais pessoas me convidam para cantar. Eu modifiquei a letra da música, de tal maneira que, agora, os versos contém contém a mensagem dos nossos antepassados.

 

 

Eclesiastes

Há poucas obrigações menos tediosas que uma festa de casamento.  Depois de assistir à interminável cerimônia religiosa, praticar o senta-e-levanta incansável e não ouvir a leitura rápida e com má dicção dos textos divinos, começa a parte laica da festa. A comilança. Sentamos entre pessoas estranhas e dividimos uma refeição à espera dos cumprimentos dos noivos. Hoje, a cerimônia é bem diferente, com outras tradições. Apesar de estranhas, são alegres e participativas. Yerushalaim. Israel. O jantar foi animado por um show com músicas do Roberto Carlos. O cantor é um mocinho, vinte e cinco anos no máximo, muito magro, pálido, com cabelos ruivos lisos e compridos, o seu nariz é mais que um apêndice, tem vida própria.  Ele circula pela festa conversando, contando causos do cantor. Canta usando a mão do interlocutor como microfone. Faz todos os gestos do cantor. O menear da cabeça,  espreme os olhos,  quebra o tronco sobre a perna esquerda e joga lá e cá o falante. Conhece todos os detalhes da vida do artista,  desde o mais íntimo até o mais público. O número da peça que o artista utiliza como prótese, a quantidade de músicas gravadas, época, gravadora e discos vendidos. Um dia, viajou ao Rio e plantou-se defronte à casa do cantor, no dia do aniversário, até ganhar um pedaço de bolo, entregue pessoalmente, e que jamais foi consumido. Está protegido e congelado. As letras das canções estão diferentes, utilizam palavras desconhecidas, mas a rima é a mesma.

 

Jó.

– As pessoas que arquitetaram a divisão do espaço interior de um avião deviam ser processadas, o senhor não acha?

– Não. As pessoas que projetaram deveriam VIAJAR nestes aviões.

Meu vizinho de assento se apresentou: “Daniel”. “Roberto”, respondo.

Estávamos na primeira fila, havia um assento vago entre nós e uns milímetros a mais diante dos pés. Vou aguardar até o final do embarque para comemorar. (Será que terei que conversar a viagem inteira?)

– O voo noturno faz o tempo passar mais rápido, eu tomo um remédio e durmo até a chegada. Eu tenho medo de avião, principalmente da aterrissagem.

(Meu Deus.)

Eu estava sentado no corredor. Começou o serviço de bordo. Jantar à vista. Meu vizinho não tinha sossego. Observava atentamente as instruções de segurança, ligava e desligava o monitor à sua frente. Parecia praguejar contra o conteúdo. Abria e fechava um livro volumoso, muito usado e gasto. Três vezes ao banheiro.

– Sou imitador do Rei.

– Ah.

Abaixei meus olhos. O livro aberto sobre a mesa de apoio. Acendi a luz sobre meu assento.

– Só leio sobre a vida dele, tenho todos os livros, mesmo os que ele proibiu. Meus pais me pagaram essa viagem. Vou me hospedar no Chabad Lubavitch e me aperfeiçoar no Talmude. Você quer ouvir um pouco das músicas dele? Tenho aqui uma gravação do primeiro álbum de sucesso.

– Meu pai é maestro. Apesar de não gostar de música popular, gosta dele.  Foi contratado para gravar um elepê: Eu te darei o céu e outros sucessos, em 1966.  Foi a partir daí que seu ídolo fez gravações na América, com o mesmo arranjador do Ray Charles. Dele, meu velho não gostava. Ganhou um álbum autografado e me deu de presente: Dedicated to you.

– Que coincidência! Eu devo ter aqui, guardado comigo, você quer ouvir?

 

 

Cântico dos Cânticos.

Eu me rendi. Talvez com o fone no ouvido eu conseguisse ler. Depois de algum tempo, a paz se instalou entre nós. A comissária começou o serviço do jantar. Ela era alta, cheia de carne, uma saia justíssima, prestes a estourar sob a pressão carnal. Nada lhe escapava, a expressão facial curiosa e atraente. Toda vez que passava por mim, esbarrava com a coxa em meu braço. Parecia não perceber, ou fazia de propósito. Passou uma, duas, três vezes. Eu tentei uma aproximação visual. Nada. Só de viés.

É impossível eu dormir em aviões. Sempre trago comigo minha valise com livros. Eu os escolho pela duração da viagem.

Senti um toque no meu ombro. Ele pedia passagem para ir ao banheiro. Afastou a cortina da primeira classe e se enfiou lá dentro. Antes que alguém o impedisse, estava na fila conversando com Ray Charles.

Tirei o fone de ouvido e ouvi apenas a voz do americano.

– O senhor canta também? Meus parabéns. E o que é que o senhor canta? Cover? Sei, sei. O senhor tem aí para eu ouvir! Obrigado. Gosto muito do seu país. Vocês são muito afáveis. Sempre sou bem recebido aqui. É a minha segunda viagem. A primeira faz bastante tempo e guardei dela todo o material. Infelizmente não encontrei equipamento compatível na América, já estava fora do mercado. Meu show foi I can’t stop loving you.  Adorei o Rio de Janeiro. As pessoas costumam se tocar aqui. O senhor sabe me explicar? Fiquei um pouco… hã… constran… confuso. Nós não temos esse hábito. Existe um respeito pelo espaço alheio. Eu gostaria de ouvir, sim. Pode me passar o fone?

Desde os fundos da nave, dois rapazes grandes e de terno se aproximavam deles. O cantor sinalizou com a mão e eles se afastaram. A cena diante da porta do banheiro, que já ficava congestionado, chamou a atenção dela, comandante da tripulação, que se encaminhou para lá passando no meio de todos, fazendo questão de esbarrar com todos os erres contra o corpo do cantor, e ficando com a face voltada para Daniel. Tempo suficiente para eu ver duas sobrancelhas pairando sobre os óculos escuros, formando um duplo acento circunflexo. O seu sorriso branco e franco de boca aberta surgiu. Deu por terminada a conversa, devolveu os fones de ouvido, e entrou no banheiro.

Daniel voltou ao acento. Estava descontrolado, excitado e curioso. Não conseguia acreditar que entrara no compartimento de primeira classe. Vivera seu momento místico. Só o Rei poderia ter dado a ele essa oportunidade. Ray Charles conhecia Roberto Carlos. RC x RC. Só assim ele houvera conseguido conversar. Não fora apenas educação, não. Ele também é fã do Roberto. Claro que é. O senhor fala inglês? Falo, por quê? Ele ouviu a música e ao me entregar os fones, me disse uma frase que eu não entendi. Qual? – It’s too sappy.


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