O amuleto

Dheyne de Souza

 Não sabia muito bem como cuidar daquilo. Aquilo que lhe escorria pelos olhos e queimava. Subornava vizinhos, constrangimentos, palpites. E não sabia, enfim, como guiar aquele adorno malquisto, fama. Interposto entre a cidade e. E aquele todo mar. E aquela água em seus pés, aquele refresco soprando promessas. E a morte som.

Mas é que poupava tanto as pessoas. Mas é que a impressão de todos os fatos maqueados e a sua pele tão límpida, tão pura quanto não o vômito, não a ira, não o grito, a curva, o silêncio, o amuleto da dor. Ali, no teu colo convite, palmas.

E você veio então, escancarando a porta a vida a boca a foz a fresta. E todos os mistérios iludiram-se mais uma vez. Para que pudesse, insano, cultivar outras quimeras, enganando de luz o bastidor suado.

– Eu preciso te cavar a vida.

Mas por que, tão tarde, esquece? Porque zombo, sonho, minto e me canso. Todos os dias assim. Todas as minas assim. À borda. Ao palco.

– Tenho ficado confusa com essas suas palavras. Não sei de onde vêm, sequer sei se realmente as ouço. Se não é de mim mesma bêbada extraviada mendiga que fujo e amparo.

Então é por mim. Transeuntes revoltados nos sofás da memória, o mundo inteiro aparado nas raízes, tetos caindo a galopes.

– Eu posso mesmo estar enlouquecendo.

Todos nós podemos, a qualquer momento, em qualquer vingança, em um mero verbo, estouro.

Já não mais os prédios soltos, a silhueta estrábica dos meios-fios, a aparência torpe dos humanos, os faróis envoltos em alquimia, o paraíso das preces.

A explosão que o mundo faz parecer inconsciente

aplauso.


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