A maçã de Kafka

Gerusa Leal

 

Poderia me dizer, por gentileza, quem é o senhor? – perguntou K. e logo se sentou meio ereto na cama. Imagine a surpresa quando B. respondeu com uma voz singularmente amena e firme, “Acho melhor não”.

Anna deve me trazer o café da manhã – disse K. tentando verificar quem era realmente aquele homem. Repetiu a pergunta com a maior clareza que conseguiu, mas a resposta anterior veio ainda mais firme, “Acho melhor não”. “É impossível”, completou B. no tom de quem transmite uma informação

“Impossível”, repetiu K. feito um eco. Isso seria uma novidade, disse levantando-se nervoso, vestindo rapidamente as calças e atravessando a sala a grandes passos. O que quer dizer?

“Acho melhor não”, voltou a afirmar B.

Mas o que o senhor quer, afinal? – insistiu K. Vamos, estou esperando.

“O que deseja que eu diga?”, perguntou dócil B., junto à janela, atirando o livro sobre a mesinha enquanto se erguia e caminhava em sua direção.

Com licença – disse K. e passou às pressas para o quarto.

“Acho melhor não”, apressou-se B., seguindo K., que ainda teve tempo de dizer: Entre, entre! B. desapareceu silenciosamente atrás do biombo.

K. deu uns passos na sua direção e exigiu que se explicasse.

Me diga, por que se escondeu aí atrás?

“Acho melhor não. Não respondo a perguntas como essa.”

Terá de responder – disse K. Aqui estão os meus documentos de identidade, agora mostre os seus. Basta uma averiguação. Isso é de praxe. Não é? Não vai falar nada? Responda!

“Oh, céus! Acho melhor não”, respondeu B. num tom agudo. Parecia que analisava com cuidado cada palavra que K. proferia, compreendia o que ele queria dizer, mas uma razão superior o levava a responder daquela forma.

K. se envolveu sem querer num diálogo de olhares com B, mas depois bateu nos papéis e repetiu: Aqui estão os meus documentos de identidade. Está decidido a não atender o meu pedido – um pedido feito segundo o costume e o bom senso? E virando-se para o biombo, completou: Venha cá e cumpra com o seu dever.

Mas B. não respondeu.

Leve-me ao seu superior – disse K.

“Acho melhor não.”

K. ficou um instante em silêncio. Viu que B., atrás do biombo, pegou de uma sacola em que não reparara antes um punhado de pães de mel. Alimenta-se de pão de mel, pensou K. Ficou considerando os efeitos prováveis no organismo humano de uma alimentação à base de pão de mel. Esse era feito basicamente de gengibre, que lhe dava o sabor final. Ora, o que é o gengibre? Algo picante e condimentado. Seria B. picante e condimentado? De modo algum. O gengibre aparentemente não tinha esse efeito sobre B. Provavelmente ele achava melhor que não tivesse.

Atirou-se sobre a cama e pegou, na mesa de cabeceira, uma suculenta maçã que na noite anterior havia reservado para o desjejum, agora sua única refeição matinal. Mas, de qualquer modo, como se assegurou à primeira grande mordida, muito melhor do que o insípido pão de mel com gengibre de B. Pela primeira vez naquela manhã sentiu-se bem e confiante. Possuía, em um barril no canto do quarto, um estoque razoável. Poderia perfeitamente passar alguns dias se alimentando de maçãs. Afinal B. não se alimentava apenas de pães de mel?

Muitos dias se passaram. Naquela segunda-feira Anna bateu na porta e entrou com a bandeja para servir o café da manhã. Perguntou-se onde estaria o patrão àquela hora, ainda era cedo para já ter saído para o trabalho; e o que fariam tantos talos de maçã espalhados ao redor do leito. Foi ao canto do aposento e checou, o barril estava vazio, a não ser por algumas frutas podres lá no fundo, cheirando a azedo. Deu de ombros e resolveu limpar o quarto. Ao levantar o lençol encontrou mais um monte de talos de maçã espalhados em cima da cama.

Despejou-os no chão, abriu as janelas, tirou o pó dos móveis, varreu, juntou tudo; com a pá colocou dentro de um saco de lixo. Apanhou os lençóis para lavar. Dando uma olhada geral para conferir o trabalho notou, na mesinha atrás do biombo, uma sacola de padaria ao lado de um resto de pão de mel meio mordido e ressecado. Pôs no saco junto com os talos de maçã, deu a faxina por terminada. Deixando a bandeja com o café da manhã sobre a mesa de cabeceira, saiu do quarto encostando a porta.


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