Alexandre Alexandrino

Para Paulo

Eduardo Sinkevisque

Um, dois, três … salvo todo mundo. O menino contou até três. Quando olhou, o terceiro e o quarto tinham sido extensos: pode ir? Pode? Quando expirou, o expiro era imenso. Contou de novo. Ao olhar, tinha sido o vento. Ao redor, olhos imensos, bisbilho­teiros. Ele no centro. Maria abrindo portas. Janelas fechando-se em suas pernas cha­vefechando-se:  ainda não, ainda não. Mariazinha se escondeu atrás do poste, atrás do sem fundo do muro mudo: pode ir? Pode?

 Nas costas do mundo, o vento coreografava sílabas, linhas, estrofes no pasto do retrato. Os olhos acendiam antes do tempo enquanto Alexandre pousava entre os meninos, os separava e os via antes de se tornarem vistos: poste antes da noite, va­galume num pernoite. Ele não era magno, não era grande. Biblioteca ele não tinha, muito menos de guerras participado … não era príncipe, não tinha principados, mas partici­pado de um encontro naquela noite. Ele era estrofe e estrofado. Ela era estrondo, estrondava com o encontro. Ele causava um estrondo e uma separação de namorados.

 No acende-apaga, Maria escondeu o poço, a menina, o gozo, pra dentro da vagina: menina senta direito, fecha as pernas, esconde a calcinha … A fechadura piscou claviculário ali do lado: lá vou eu … pode ir? O menino se encolheu e o escuro tomou seu corpo. Encolheu e o escuro roubou seu beijo. Quando apagava, Alexandre a beijava … nisso, Joãozinho se perguntava: com quantas sílabas se alexandra uma vingança? Com quantas linhas se desalinha um beijo? Pegou o carretel, barbante, cordonê, linha cor­tante e escandiu. Ao escandir as flores, não tinha resposta, somente margaridas, Marias Margaridas contadas no dedo, ao espalhar do pólen , ao contato do corte do vidro: você é macho, é macho …

 O menino se encolheu e a vergonha tomou seu corpo. Encolheu, porque Alexandre trocou de rosto: Gorda Gordona beijada sem ser pelo Sr. Seu Pinto. Suas lá­grimas colocando lágrimas nele, esvaziando o copo de leite do doce de leite que ele dava para ela. Mesmo porque o vagalume a beijava no amarelume do acende-apaga. Joãozinho escandia flores. O pólen se espalhava: quando escandi, não parecia longo. Não parecia cortante … quando desci, não era assim tão longe. Maria engoliu a rima, quadrado, pipa grande na barriga. Paralisou-se: duro! Alexandre os olhava. Puxava o balde, mas só ti­nha corda: mole! Esgarçou-se e esticou a tônica pelas bordas de seu rastro: quem para ele dá o braço?

 Lá em baixo, ficaram os baldes. Cansados ficaram seus braços: quando pu­xou não tinha nada. A corda não acabava. Não veio absolutamente nada, nem nada, no­nada. E pesados ficaram os braços. E sangrando ficou o cansaço: lá vou eu … para o centro, tentando tampar os olhos dos outros, como fiz desde o começo. Ao abrir o peito, não tinha esgrimas. Não tinha nenhum músculo no seu peito. Havia outros bisbilhoteiros. Outros peitos de Alice na capoeira se arregalando para serem lidos: com quantas vendas im­peço que me vejam? Em que tempo os vejo antes de vê-los?

 Alexandre tampou todos. O príncipe valente, como não vencia Alexandre, qualquer hipótese de Alexandria, vencia onde Alice se despedia. E o duelo ia-não-ia. Tatiana o entendia sem ver motivo para beijar a menina tauromaquia: lia, não lia. Desexistia. Desistia.

 Alexandrino não era menino, nem menina. Não tinha nada, nem garganta, nem pinto, nem vagina. Mariazinha ali dentro, escondida rima. Escapando pelo defeito e enfiada de novo com o dedo dentro. O menino batia cara ali tão perto … Conto, mas não o vejo. Maria costurava a boca: não quero que conte ; por conter te contenho … não quero que diga, deixa que te costure com a língua. Ao fazê-lo, não tinha poço, mas uma menina presa na vagina, gomo, tangerina.  Tangia o gado, marginalizava o menino: se não tiver balas, não sobe aqui em casa. Se não depositá-las depositário, não tiro mi­nhas meias. E propôs: vamos brincar de narrador invisível?

 Quando acendia, ninguém o via. Quando apagava, ele ali não estava. Ainda ficou gritando estou aqui, mas não te vejo. O beijo ali tão perto: margaridas nos lábios que o batom desfazia muros e milênios. Olhos indecisos. Os meninos cresciam: pode ir? Quando pode, o olho era de vidro. Esticou-se, quebrou-se e se fizeram esquinas, Madalenas arrependidas: então, Margarida, e aí?

Daí, que apagava … Alexandre a beijava. Colocava lágrimas nos olhos que colocaram doce de leite em outras lágrimas. Beijos onde o menino brincava e mais lá­bios onde a ovelha pastava. Seu Pinto se vingava, seu sentimento de vingança na vigi­lância. Dava mais corda, encompridava: Cecília aparece, vai? Vou te contar um segredo: Alexandre comia ovelhas, com elas ficava enrolado na corda que só tinha corda. Tra­vessão, travessura: andava o rastro com seu sapato. Alexandre, de Alexandrino a anda­rilho, mínimo máximo divisor comum. Mariazinha fugiu no orgasmo de Maria ali no pasto. 

Inversão, investidura: as ovelhas costuraram o rasgo do orgasmo, seus ca­chos cortados em cachos amarrados: cadê a menina que guardava na vagina? Agi­gantou-se. Precipitou-se ali embaixo. Fugiu no pasto com seu orgasmo. Sabe o que foi mesmo? Depende do ângulo, depende do lado … se for triângulo ou quadrado.

 Alexandre foi jogado no expiro do espirro do menino ao contá-lo: sabe o que foi? Te empurrei, porque era gostoso  te ter empurrado. Te prendi às ovelhas dos novelos cos­turados. Te prendi costurado. Sabe o que foi mesmo? Tem dia que de noite é assim: o mundo desaba, vem alguém e rouba a boca de quem a gente beijava. E o vento espalha beijos num verso de doze sílabas, por onde quem rouba anda em cachos que denunciavam o galho. Chove gozo, olhos chovidos, gozo chorado.

 A história começa aqui: tratava-se de um caso de alexandrefilia, de um amor ao doze à primeira vista. Tratava-se também de um andarilho metrificado num poema. Daquela vez em que a menina se fez e se deixou ser beijada. Feita, refeita, beijada e presa do menino es­capada. Deixada ser beijada pelas sílabas que beijaram sua boca. E pelos olhos que abri­ram seus lábios.

 O menino recuperou-se. Voltou a ser o mesmo depois que Alexandrino, nômade de castigo, foi empurrado. Ela beijando. Ele beijado. Ela num canto. Ele vin­gado. Alexandre de castigo no quarto escuro amarrado. E a cantiga era antiga, com Cecília na garganta: amor cama arranha o pasto com arados. Coloca-o empurrado. Ar­ranhado: sabe o que foi mesmo? Um, dois, três … não salvo mais ninguém. Um, dois três … dou por contado.

 Maria gozava, correndo pelo pasto, nos olhos e no retrato, pelo campo do provável. Chicote queimado, cabo de guerra: o poema saía aos baldes, vagalumes va­galumeados, costurando postes multiorgásmicos. Cabo de guerra, chicote queimado: ficava mais claro, mais claro. Alexandre limpava o turvo, o óleo dos olhos, enquanto a corda se esticava, alongava os passos, o desenho dos sapatos. Ele, com câmeras len­tas nos passos do sapato, lia Gatomaquia, reconhecendo Cecília onde havia e não havia: amor cama mia arado no telhado.

 Outra rima, aquela que Maria não engolia na barriga. Com os dedos mal em­purrava. Sobravam orgasmos espalhados no pasto espalmado, quando a menina fugia: está crescendo, convulsionando, alongado. Em convulsão, convulsionado: quem sabe o fim da estória levanta a mão. Olha para ela, para cima e pra baixo, para o avesso, para o lado. Olha para margem, margeado: para cima dela quem olha?

Um, dois, três … não salvo ninguém. João estava imenso, grande, grosso, escapando pelo ferrolho da gaiola: quem sabe com a língua, saia da lingua­gem do começo da história? Quem sabe a bruxa não o recoloque na gaiola? Quem sabe levanta a mão. Quem sabe começa outra estória.

 


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