E por falar em Kafka…

Lúcia Bettencourt

 

… isso aconteceu num dia enevoado, na cidade de Praga. Ou talvez tenha acontecido num dia de sol. Ou talvez nem tenha acontecido, mas pode ser que o sujeito magrinho, de olhos assustados e cheiro azedo tenha sentado naquele banco lá do alto, e contemplado o Vitava, que, talvez, ainda fosse azul, como o Danúbio. Só que lá de cima o rio era uma fita prateada, o sol oblíquo se refletindo nas águas que, de longe, pareciam paradas. E, se o dia fosse nublado, o rio estaria ainda mais prateado, refletindo nuvens imóveis.

Ou pode ser que o sujeito magrinho, ainda antes de sentar naquele banco lá do alto, tenha tropeçado no batente da porta, ao sair de casa, naquela manhã que pode ter chegado sombria e silenciosa, com suas nuvens, e que depois foi clareando aos poucos. O sujeito magrinho exalava um cheiro quente,  cheiro de suor provocado por um acúmulo de mantas sobre a cama. Os cobertores não aqueciam, mas guardavam os cheiros, como um mapa.

O que provavelmente aconteceu, se é que chegou a acontecer, foi que o sujeito magrinho, de olhar tristonho e cheiro azedo, antes mesmo de sair de casa, ainda dentro de seu quarto, abriu os olhos e percebeu que, ao invés de dormir de lado, sobre o braço esquerdo, como era seu costume, tinha dormido de barriga para cima, o que lhe provocou uma lembrança vaga, um fiapo de ideia. Mas, sem tempo de perseguir essa ideia, levantou-se, vestiu o sobretudo, e, de estômago vazio, saiu de casa, tropeçando no batente da porta, machucando o pé. Desceu pelas ruelas apertadas, sentindo dor, uma dor aguda no artelho, a cada passo, e uma dor surda no corpo, por ter dormido numa posição diferente da habitual. E, ao chegar naquele banco lá do alto, de onde podia ver a fita prateada em que se transformava o Vitava, sentou-se.

 Ali sentado, com seu corpo magrinho exalando o cheiro de ferrugem, um cheiro de suor provocado pelo exercício que se misturava ao cheiro azedo de outros suores de caminhadas anteriores, ele se sentiu nauseado de fome e dor. E, agora, estava parado, aparentemente imóvel, assim como o rio, aparentemente imóvel, e como o vento, que desistira de soprar, e como a ave escura, lá no alto, de asas abertas. Imóvel.

Essa contemplação não teria sido importante se ele, imóvel na paisagem imóvel, não tivesse escutado um ruído sem esperança, e por causa desse ruído ele não tivesse virado a cabeça e, finalmente, visto a barata moribunda que tentava se defender das hordas de formigas que se preparavam para carregá-la dali. Como engenheiros atarefados numa construção monumental, as formigas confabulavam, ensaiavam manobras, indiferentes ao resto de vida que a barata ainda desejava usufruir.

A lembrança vaga, o fiapo de idéia que lhe acorrera ao despertar, se fixou naquele inseto infeliz, manobrado por seres muito menores que ele, indiferentes ao seu sofrimento. O sujeito magrinho apalpou os bolsos à procura de um pedaço de papel. Era uma história que ele havia começado a escrever. Uma história tão triste quanto os olhos que contemplavam o Vitava.  E, num ritual solene, com movimentos pequenos e contidos, na tentativa de minimizar seus odores, desdobrou a folha e pôs-se a ler, com a seriedade de um rito fúnebre desempenhado com unção.

Ao terminar, levantou o pé dolorido e pisou com força sobre a barata e seus torturadores. Naquele momento, achou que era Deus.

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