Edifício Kafka

Susana Fuentes

 

Cuidado, a moto! E agora, a bicicleta, Antonia berrou, no susto. O biscateiro pedala seu carrinho de catador de bugigangas. Passa por dona Antonia e fica aborrecido que os pedestres lhe atrapalhem a passagem. Avança na calçada junto às bicicletas em guerra contra os caminhantes. Ué, até o senhor? Que sempre andou pela rua? Cuidado, moço, assim vai atropelar toda a gente, Antonia disparou o desafio e aguardou a resposta: a rua está é muito perigosa, dona.

Oi, vizinha, e essa agora… a gente que saia da frente. Dona Antonia voltou-se para o seu João, também ele retornava da feira: e não é, seu João? Outro dia quase me atropelou a bicicleta, contei ao guarda e sabe o que ele me respondeu? Ah, que jeito, eles têm mesmo que andar na calçada. Os carros estão muito violentos.

 

Dona Antonia e seu João tratavam assim da perda das calçadas, quando foram interrompidos por um portão.  Isso mesmo, um portão bem diante dos seus narizes, no instante em que se despediam. Ora, chego em casa e não posso entrar, que novidade é essa?, Antonia perguntou-se rumo ao bloco seguinte. Aquilo era sem dúvida um sinal do destino que se abateria sobre a cidade. Tantos anos ali no mesmo prédio, para aos poucos ver os moradores darem de ombros. Multiplicavam-se os pequenos infortúnios do dia a dia.  E agora, esse novo portão entre os blocos, Antonia pensou. As grades da rua já os isolavam – ou os protegiam – do resto, dependendo do ponto de vista, que de um jeito ou de outro era listrado. Seu João, espere aí que vou chamar o porteiro do outro lado. 

As passagens estão cada vez mais raras. Ah, mas como são belas as passagens. E de repente aquela grade ali, apartando os moradores, separando Antonia de João no Edifício Kafka. Dona Antonia ainda olhou para cima, para ver de onde surgira a boa bisca, se não fôra parar ali por acidente. Que nada, estava bem colada ao chão, chumbada ao cimento onde um dia vingara um canteiro.

Na cidade, divididos entre portões, os habitantes já não falam a mesma língua. Agora, interromper as passagens entre os blocos – isso já era demais. Ninguém sabia dizer quem decidira pelo portão, mas poupavam-se às perguntas. De todo o modo, a explicação para qualquer medida bem terminaria em – ou começaria com – “por questões de segurança”. Até a octogenária Esmeralda aceitou dar voltas por fora do prédio, e dizia… não, está tudo bem, é, valoriza o prédio, os apartamentos, é, a segurança. Já para Antonia parecia o início de uma guerra, onde comandos arbitrários eram engolidos por um pessoal miserável e outros tantos que na intimidade pensam… o que vão lucrar com isso eles mesmos. Que morram uns aqui, mas se vendo meu apartamento agora…

 

Passada uma semana, duas feiras, quatros sustos na calçada e centenas de bicicletas disparadas, dona Antonia está mais paciente diante do portão. É esperar o porteiro no comando do clique para o abre-te sésamo do interfone.  A maior parte dos vizinhos já não vê a grade ali, naquele espírito que bem condiz com a capacidade humana de a tudo se acostumar. O morador do primeiro andar, porém, não consegue deixar de ouvir péem, prack, track ao longo de todo o dia.

Quando o porteiro, por algum motivo, deixa o posto de onde controla os mecanismos do novo portão, retorna a barreira entre os vizinhos. E o silêncio. Mas de volta ao posto e acabado o impedimento, abre-se o portão e a grade some por segundos medidos em péeem, prack, treck pelo resto do dia. Só a dona Antonia de vez em quando ainda finca o pé, na verdade não se acostumou tanto assim, e seu sinal de protesto é nunca fechar a porta atrás de si. Ainda mais se avista o seu João, aí tem todo o cuidado em deixar encostado o portão, finge uma dor nas costas e vira-se para verificar que ele não bateu.  O morador do primeiro andar, que escreve estas linhas, já virou seu fã.


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