Otília Kafta

“La verdad, por escandalosa que sea,
es que los hindúes les importan más las ideas
que las fechas y que los nombres proprios.”
Borges
 

Erwin Maack

 

Reunião em família. Todos na sala de jantar ao redor da mesa. Na cabeceira, o pai Hermano e, em frente a ele, Noé, o filho. Sentadas à mão esquerda do pai, a filha, Valéria, o outro filho, Gabriel, e todas as recordações dos irmãos, pai, mãe e parentes, todos mortos; à mão direita, a mulher Júlia, mais uma filha, Otília, e Lalá, seu namorado.  Ao terminar o jantar, as meninas imediatamente ajudaram a mãe com a louça. O pai aguardou a arrumação jogando paciência na mesa redonda de tampo forrado de flanela verde. Gabriel esperou, sentado, olhando para a louça guardada no móvel, distraído com a paisagem rural esboçada nela em azul; estava distante. Lalá e Noé conversavam em voz baixa na varanda da frente.

 

Noé largara a faculdade de medicina. Gostava mesmo era de poesia, que transformava em canções. Essa vontade era mais forte que qualquer outra, e, sendo forte, contrastava com seu corpo miúdo e seus movimentos lábeis. Estava com o propósito de seguir carreira artística. Seu espírito se arrumava em palavras e rimas e ritmos. Naturalmente. Sem esforço. Até quando dormia, era em versos que sonhava cantatas e mulheres. Contava com a ajuda sorrateira de Otília, e agora com a de Lalá,  seu companheiro de todas as horas e repudiado pela mãe e pelo pai. Com o seu jeito gozador, diziam, havia raptado dois de seus filhos. Otília tinha uma alma sutil de amante carinhosa. Já estava em rota de franca colisão com os pais. Afinal, Lalá era gói, americano (torcedor do América Futebol Clube) fanático, magro,  mulato, de voz fina, boêmio, amante fogoso, que nas horas vagas trabalhava com dedetização. Um tijucano que frequentava o piscinão de Ramos procurando rabo de saia. Causara escândalo ao surgir fantasiado de diabo, todo de vermelho dos chifres ao rabo, durante o corso de comemoração do título carioca.

 

 

O pai o considerava apenas um atencioso auxiliar no Shabat. Além de solícito, fazia todas as tarefas interditadas à família no dia a ser guardado. Beirava o servilismo. Foram o respeito, a educação e o carinho que conquistaram Otília. Apenas um amor platônico. O pai não o vetara, mas periodicamente sentenciava: “Isso não adianta de nada, ser talentoso e engraçado. Isso não enche a barriga de ninguém”. Considerava-o um reles, um parasita, exterminador de inseto, um grilo de casaco verde e pernas finas.

Atingido por uma dessas diásporas, o pai saíra de sua aldeia e conseguira comprar suas passagens para a América. Descera no Rio e sem falar uma palavra de português, pensando estar em Nova Iorque, falando o iídiche. Com a ajuda de alguns patrícios, conseguira lugar em uma pensão e, afinal, descobrira a América – do Sul. Em seguida, descobrira também a sua mulher. Casaram. E, de mascate vendedor de perucas para empregadas domésticas e próteses para desdentados, descobrira com muita luta um ponto em Cascadura e montara sua loja de móveis, que até hoje garantia o sustento e a prosperidade da família.

A mãe procurava evitar que ele descobrisse também a vocação do filho, acobertando-o.  O temperamento prático e irascível do pai tornava tudo mais difícil.  Até o dia em que Noé lhe entregou  uma folha com letras de músicas. Olhou de relance os versos:  “Não tem ideal na vida/Além de casa e comida/Tem seus amores também/E muita gente que ostenta luxo e vaidade/Não goza a felicidade/Que goza João Ninguém!” Jogou-a na mesa de cabeceira de sua cama, para ler depois, com calma. Foi esse o dia em que Noé declarou que não iria mais à faculdade. Ela estava acabando com ele. Consumindo seus dias. Queria fazer o que queria fazer.

             

 

Foi proibido de fazer tal asneira. Terminantemente. Não é coisa de nossa família. O filho jamais se tornaria um vagabundo enquanto o pai vivesse. Esqueça isso. Foi uma cena tragicômica. Ficou surpreso diante da firmeza do filho. Não dera nenhuma resposta, não entrou no clima de agitação e rebuliço instalado no lar. A mãe não ousou desafiar o pai, a frase “quem sabe fosse melhor assim” ficou rodando dentro da sua cabeça sem encontrar espaço para sair, os dentes cerrados, os ouvidos zonzos com os gritos, tapados, as mãos, sem lugar para se esconder ou coragem para abrigar Noé, ficaram presas uma na outra. Tronco curvado, Noé enfrentava o ciclone de gritos e perdigotos. Até que o pai, cansado, cessou. Ele fremia, arfava, o purpúreo desceu do rosto e se espalhou pelo corpo. Algum tempo depois, deu um longo suspiro e disse: “Seu irmão está encaminhado. Gabriel montou uma empresa de contabilidade, e poderá arranjar um emprego para você se sustentar. Noé, vá trabalhar com seu irmão. Basta de humilhação. Não basta o nosso nome ter sido manchado? Eu fui registrado no Brasil por um sefaradi, um… um árabe, ninguém me tira isso da cabeça. Isso foi vingança. Inveja. Nosso nome foi transformado em ‘escroquete’ de carne: Kafta. Um bolinho libanês. Trocar K por T? Essa troca das letras é motivo de troça pela comunidade. Pela frente ninguém me fala nada. Mas eu sei. É por trás, hã? Sem defesa. Eu não consigo suportar a idéia de você se tornar um arruaceiro, um dançarino, um… um… desclassificado”.

           

Depois de toda aquela agitação, o clima familiar recebeu uma demão de verniz e se acalmou. Entretanto, ao ser convidado para o jantar de hoje, Lalá tinha alguma coisa pesando em sua consciência. Não sabia exatamente o que era. Aliás, não sabia qual dos motivos fora descoberto. Mas tentou relaxar, esquecer. Não dar bola. E perguntou à Dona Júlia: “E aí, sogrinha, o que rola na janta?” Ouviu: “Teremos: Borscht, Varenyky, Piroshky, Latkes, Blintzes.” “Xi! Quanta gente! Vai sobrar um lugarzinho pra mim?” Ela se resignou a franzir a testa, dar de ombros e se encaminhar desanimada para cozinha. Logo depois, chegou Noé. Depois de informado, desatou a rir e disse entre os dentes: “São os pratos que a mãe só prepara em datas festivas. É sinônimo de fartura, das tradições e da perícia da dona da casa”.

Hermano terminou sua mão, chamou a todos e começou a conversar. Depois de esperar, tamborilando com os dedos da mão direita, a chegada de Noé e Lalá,  disparou:

 

           

– Meu amigo Salomão me contou que você, Otília, está alugando uma casa dele no Andaraí, e que apresentou o Lalá como fiador. O que significa isso?

– Não é nada do que você está pensando, pai – envergonhada, olhou para o chão e depois para a mãe.

– Estou pensando que você é uma sem-vergonhice sem tamanho, é isso que estou pensando.

– Seu Hermano – disse Lalá –, eu posso explicar?

– Por favor, Hermano, deixe o menino falar – suplicou Dona Júlia.

– Desembucha.

– A casa que estamos alugando é para o Noé. Ele está precisando se isolar, sair aqui do Grajaú, da família, para compor, para consolidar a carreira. Ele tem talento, mas não consegue sossego ou espaço para se concentrar. Trabalha até as quatro, só tem o final da tarde para compor. E de noite, bem de noite, nós vamos cantar, vender nossas composições, fazer negócios.

– O senhor é muito hábil para mostrar o lado bom de alguma coisa ridícula, que não tem o menor valor. Nós somos uma família honesta e trabalhadora. Meu pai foi açougueiro durante cinquenta anos da sua vida útil, nunca tirou férias, apenas não trabalhou quando era absolutamente proibido pela nossa religião. Era também um rabino e ajudava ao próximo naqueles momentos de folga. Cantou o Altíssimo sem ser um herege. Sempre foi humilde. Ganhou o seu pão honestamente. Eu tento seguir os seus ensinamentos, e vem o senhor com esta farsa? Não se envergonha de, compartilhando da nossa intimidade, sabendo como somos, fazer essas propostas?

           

Ouviu-se a voz baixa de Noé:

– O senhor desde que eu me lembro jamais nos ouviu, não só a mim, mas a ninguém aqui de casa. Qualquer coisa que nós queríamos só podia ser ouvida depois de termos engolido o ovo cru pela goela, como ração diária de saúde e bem estar. Será que o senhor nunca pensou que a felicidade não é apenas sair ganhando e catando por aí? Que o senhor sabe se exprimir apenas com seu comércio? Quando compra suas coisas e as vende, tem a satisfação de ter sido entendido por um cliente seu. O senhor adivinhou o que ele gostaria de fazer com o dinheiro dele e por isso está feliz. Quer se radicar. Pertencer a algum lugar. Perante os seus, ser considerado um bom comerciante o enche todo de orgulho e exige que nós, seus filhos, sejamos iguais. Por que o senhor jamais parou para pensar nisso? Porque a sua vida é uma tábua de passar roupa. Pronta para entrar em ação de uma só maneira. Pensa que eu não o vejo lá na loja, parado, pensando, olhando o vazio? Será que eu não percebo quando o senhor vem para casa e a mãe se apressa a preparar o seu prato, reunir os filhos à mesa e servir tudo muito rápido, porque o senhor não tem tempo a perder? Tem, sim, pai. Tem tempo a perder, que o senhor perde só, sem testemunhas, lá na loja. O senhor nunca se voltou para si próprio. Nunca se deu uma chance de ser feliz. De curtir a sua passagem pela Terra sem se preocupar com a opinião alheia. Apenas fazendo o que bem quer. Seus acessos de cólera, a sua tirania, servem apenas para proteger ferozmente seu íntimo, e alguém, para amá-lo, tem que concordar com a essa distância. É isso, pai. O avô cantava, enquanto Rabino. Mas cantava para expressar a alegria que sentia ao servir algo ou alguém. Não protegia o seu interior, mas o compartilhava. Bem que eu queria ser um médico ou assistente de contabilidade, e ser feliz assim. Mas, pai, eu não consigo. Eu tenho uma fissura no meu corpo. Uma brecha luminosa que teima em aparecer, caudalosa como um rio, e a música se apoderou dela. E os versos se encadeiam em minha mente, querendo eu ou não. Acordo pela manhã com uma canção na cabeça, basta colocar no papel e ela está com rima e metro. Não quero me prender em lugar algum, nem em ninguém. Não pretendo me casar, muito menos deixar de aproveitar a vida. É do meu instinto vital. Gosto das mulheres que gostam de mim. Jamais vou me casar, não quero perder a minha liberdade. Não quero ser amarrado pelo pai a ninguém, por ninguém. O meu nome é honrado sim, não devo nada, não quero nada. Disse isso nos versos que lhe entreguei, e o senhor sequer os olhou. Viver jogando seu baralho, para ganhar o seu dinheiro e juntar coisas, para depois não saber o que fazer com elas? Não, pai, isso não faz nenhum sentido para mim. 

 

           

Um silêncio preencheu o local, cobriu todas as pessoas. Eternizava-se, até:

– Você é um sonhador. Vai morrer na miséria e tuberculoso, de tanto ficar sem dormir e bebendo por aí. Você está é acobertando a sua irmã.

– A minha irmã é alguém que me ama, e que pensa como eu. Eu teria o máximo prazer em poder retribuir e acobertá-la, dando algum lugar em minha casa para ela morar também. Ela é que não quer. Quer casar com o Lalá e procriar, viver uma vida sem graça, como a mãe.

– Essa questão de sair de casa é uma coisa. A questão de aceitar a fiança do Lalá é outra coisa completamente distinta. Nós, como família, temos um projeto de economizar dinheiro e poder morar no Leblon, sair daqui. Não podemos sair gastando nosso dinheiro para despertar o seu instinto criativo. Não há lugar em nosso orçamento para essas bobagens.

 

           

– Então o senhor será meu fiador?

– Não, você não sai de casa. Esse dedetizador, explorador de donas de casa medrosas, vendedor de veneno falsificado, não irá nos jogar na sarjeta. E tampouco sua irmã continuará o namoro com ele. Aguentei demais: basta, chega. Essa é decisão do nosso tribunal familiar. Se alguém não estiver de acordo, por favor, se levante.

– Vou ao banheiro – disse Noé, e se levantou.

– Deixarei vocês à vontade – disse Lalá, e se dirigiu para a varanda. Ao cruzar o batente, olhou para trás e disse: – Seu Hermano, eu tenho um amigo que quer vender o apartamento na Rua Gastão Bahiana, Lagoa. O preço é bom. Se interessar, eu passo o contato.

 

Aos poucos a conversa adquiriu algum ritmo e outra direção. O silêncio se esfarrapou. Ninguém queria falar mais daquele assunto. Depois de um tempo, a mãe pediu licença para se encaminhar ao quarto para descansar, achou conveniente afirmar o seu apoio à decisão do marido.

Uma menina toda fantasiada, dourada como odalisca, com a barriga de fora, lisa e coroada pelo umbigo brilhante de purpurina, entrou perguntando pelo Noé:

– Boa noite, meu nome é Ceci. O Lalá me avisou que ele está aqui dentro. Temos uma festa para ir, alguém pode chamar ele?

E abriu um sorriso demolidor.


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