Uma Carta Para Kafka

Maurício Melo Júnior

Senhor,

Seus conhecimentos sabem das insondáveis destruições de uma guerra. Eu as vivi de perto e se hoje o reconheço como laço de minha vida, apanhei o legado na crueza dos assassinatos insanos e largos. Foi necessário o sacrifício de milhões de homens para que apenas um se reconhecesse em suas verdades. E isso é mais doído que qualquer de seus dramas, que o drama que nos afastou, o drama que me impôs a incapacidade de estabelecer intimidades com minha carne, com meu sangue. Vivo cercado de nenhum amigo e mesmo agora, o conhecendo nas dimensões que o senhor permitiu, note, não consigo tratá-lo com proximidade. Entre nós haverá sempre a distância e a reverência daqueles que viveram sob a impossibilidade dos abraços. Sim, sou seco e distante e isso hoje me tortura.

O senhor jamais lerá esta carta e onde estiver deve acalentar espantos. Seguirei, então.

Minha jornada de fato começa há cinco anos em uma viagem obrigatória.

Minha filha Helena cumpria já o maldito exílio, provação milenar de nossa gente. Depois de anos sem notícias, recebi por caminhos tortos um precário endereço da Espanha. Senti-me impulsionado a revê-la, a reatar alguns dos fios ainda não apodrecidos de nosso relacionamento doloroso e distante. Por orientação do instinto, na tentativa de despistar os olhos da repressão, comprei uma passagem para a Alemanha. Seria apenas o velho judeu que descobre a irreprimível necessidade de rever a terra mãe.

Nasci em Munique, no ano de 1914, há 64 anos. Fiz ali minha primeira parada. Não reconheci a cidade onde vivi por 19 anos. Nem mesmo o país por onde vaguei. Dali, na juventude, parti expulso pelas primeiras possibilidades da guerra quando, em 1933, os nazistas fecharam as últimas fábricas, os últimos negócios dos cidadãos judeus. Meu velho e adotivo pai, uma daquelas vítimas, levou-me ao espaço falido de seu comércio. “Já não me resta esperanças, mas você pode se salvar. Amanhã embarque para a América. Está tudo pronto. Mais que um pedido esta é uma ordem. Se houver outra determinação celestial, depois do horror voltaremos a nos encontrar, do contrário, preserve a memória de nossa família.”

Suas palavras me doíam, mas, filho único e obediente, segui a determinação e parti. Nunca mais nos vimos.

Ao longe, impotente, acompanhei os avanços de Hitler e seus asseclas, enquanto, filho submisso e devoto, com o pouco que trouxe na bagagem, construía a vida erguendo as paredes de um comércio que, com os anos, tornou-se robusto e poderoso.

Muitas vezes pensei ter encontrado a felicidade, como em 1945. Tive três júbilos neste ano: Hitler findou, casei e nasceu minha filha. Infelizmente, cinco anos depois, enviuvei. Não voltei a casar. E dediquei-me a dar a Helena um conforto que ela discretamente rejeitava.

Nosso conflito se deu no silêncio.

A construção do conforto, no entanto, se faz com os tijolos do trabalho e do esforço, como cedo aprendi. Passei o tempo no escritório, ou por trás de um balcão, juntando o necessário para manter minha filha nos melhores colégios, com acesso aos livros que necessitava, afinal, ninguém nos rouba o conhecimento, ensinei a Helena que, como determinei, sempre se vestia com elegância. Hoje reconheço as máculas de minha ausência. A distância, porém, não impedia que fosse eu o manipulador de seu destino. Orientei a menina a cursar medicina. Percebi, passando o tempo, que Helena já não se vestia com elegância, talvez decorrência das urgências dos estudos, pensei. Tardava quando descobri seu envolvimento político: ela vivia na clandestinidade. Presa, foi torturada. Minha riqueza serviu para possibilitar seu exílio, sua expulsão da própria pátria, para jogá-la à saga milenar de nossa gente.          

Por saber as dores de uma guerra e carregar uma herança de resignação, financiei com meu suor, riqueza e indignação contida as pretensões políticas dos algozes de minha filha. Como nem tudo está perdido em minha condição humana, deixei entrar em meu escritório um dos áulicos do regime, um reles delegado que buscava se eleger para um cargo público. Veio pedir – exigir – apoio e recursos. Conhecia de seu envolvimento com a prisão de Helena. Olhei-o mais profundamente que consegui e pedi que se retirasse. O verme cresceu escudado em ameaças, em referências às atividades de Helena. Agigantei-me e, sem gritar, impus minha determinação: “Farei tudo para derrotá-lo, imbecil”. Ele se foi esbaforido de fúria, mas sem coragem para chamar-me de porco judeu, certamente seu desejo. Imediatamente acionei os cordéis que dispunha e, ao fim e ao cabo, derrotamos o desgraçado, o jogamos de volta à mediocridade e já não vejo qualquer sentido heróico neste ato de vingança miúda, mas foi daí que me impus outros desejos. A vitória de Helena seria meu triunfo.

Minha existência se pautou na determinação de trazê-la de volta para casa e não sabia sequer onde morava até me chegar a informação do endereço espanhol. Parti para a viagem.

Dois dias bastaram para o despiste necessário. Deixei a Alemanha, suas dores e suas cicatrizes abertas. Na Espanha encontrei minha menina. Tínhamos pouco tempo. Ela estava envelhecida e recusou qualquer ajuda. Graduava-se em sociologia, vivia só e ministrava aulas numa escola qualquer. Estava envolvida até o mais profundo do âmago com o movimento de proteção aos exilados e, feliz, me contava da entrega a uma irreprimível vocação. Presenteou-me com um modesto volume de poemas escritos na prisão e traduzidos para o espanhol e mostrou-me papéis esparsos – pedaços de contos, inícios de poemas – que rabiscava e reescrevia num exercício insano. Não consegui disfarçar a decepção nem conter a condição de pai. “Sua vida poderia ser mais útil. Poderia casar, gerar filos, clinicar, ser uma pessoa normal.” E guardei o modesto livro num canto da mala.

Não foi desta vez que aplacamos nossas divergências.

Voltei para casa mais cansado do que quando partira.

Na Alemanha tomei outro avião. Não conseguia dormir. O fracasso acendia todos os meus alertas. Abracei-me a uma revista de bordo apenas para, de qualquer maneira, puxar o sono, mas a insônia era mais forte e as páginas seguiam não me dizendo nada. Súbito estava olhando as horríveis fotos de um campo de concentração nazista e todo passado jorrava em meu rosto. Duas mulheres abraçadas, olhos caído de resignação, acalentam solidariedade. Os rostos me eram familiares. Uma era minha mãe adotiva e a outra um retrato perfeito da Helena envelhecida que acabara de deixar na Espanha. Quais os caminhos deste mistério? Guardei a revista comigo.

A foto reverteu todo o sentido que tinha ajustado para minha vida.          

Durante cinco anos percorri mundos e arquivos em busca da mulher misteriosa. Há uma semana cheguei ao fim da caça e descobri todas as verdades de minha existência.

O senhor deve lembrar esta mulher. Ela foi desacreditada por seu amigo M.Brod quando o procurou ainda nos princípios da guerra. Hoje, enfim, as verdades de M.M. se confirmam. Na versão que narrou para o descrédito de Brod, tentando provar sua história, ela disse de meu nascimento, do pai que me gerou e de minha suposta e prematura morte. Talvez carregasse a vergonha de ter me doado ao casal amigo, mas num campo de concentração até as vergonhas se aniquilam. O abraço impresso na foto fala isso.

Pobre senhor Brod, para quem apenas palavras e relatos podiam sair da tortuosa existência do senhor Frans. 

Há uma semana, trancado nesta chácara, sem empregados, sem ninguém, vivo em sua companhia, senhor. Vasculhei em todas as livrarias todos os seus legados possíveis. Li e reli livros e teorias. Confesso não ter encontrado sua verdade plena.            

Durante toda vida me negaram a capacidade de somente dizer esta palavra: pai. Pelo menos em seu sentido lato. E somente agora, depois que descobri todas as determinantes de meus gestos, encontrei um novo sentido para esta minha angustiante e dolosa vida.

Recuso-me a ser um novo Hermann, embora seus erros tenham se repetido em meus gestos de até hoje.  O livro de poemas de Helena está comigo. Sua leitura ainda não me deu o prazer que necessito sentir – há dores lancinantes em cada verso –, mas me trouxe a compreensão dos objetos ocultos que nos isolavam. E como quem rouba almas, decidi conhecer Helena. Pela primeira vez entrei em seu quarto e descobri nas gavetas rabiscos, textos incompletos, projetos literários. Tudo isso está agora ao meu lado e leio todas as linhas para descobrir minha tão desconhecida filha.

Helena um dia voltará e encontrará lavrado o campo. Já desenhei na cabeça todos os projetos e o executarei com minhas mãos e mais tábuas, pregos e ferramentas. A construção terá a solidez de um amor paterno. Aqui nesta casa solitária e confortável estará à mão todas as condições para que Helena, enfim, viva seus sonhos, sua sina. Livros, dicionários, seus rabiscos. E que assim saiba de sua real identidade, de minha real identidade e porque assino esta carta com esta marca também real e até então a mim estranha.

                        J. Kafka.

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