Autorretrato

Nos olhos já se vê dissimulada
Preocupação de si, e amor terrível.
A incessante notícia de uma luta
Com as panteras bruscas do invisível
É como a sensação de sede e fome.
Mudo, na cor translúcida da face
Já se insinua o pálido comparsa.
Na fronte existe um vinco que disfarça
Qualquer coisa… se acaso disfarçasse.
Mas não se vê o coração que come
O sangue espesso da melancolia.
Na boca, outro sinal de uma disputa
– Discórdia, dispersão e covardia –
E um traço calmo buscando a castidade.
No rosto todo, a usura de uma saudade. 
Paulo Mendes Campos

Erwin Maack

Passados alguns anos do enterro do pai, encontrou um velho amigo. Este estava acompanhado do filho e conversavam, distraídos, sem animação, sobre um contrato a ser assinado. Órfão, lendo e tentando deixar a poesia entrar em si, encontrando sob o iceberg dos fatos armazenados o real significado de si, ouvia sem atenção a série de palavras expelidas por aquelas bocas amigas. Exibiram um maço de papéis escritos, e o significado deles, por mais que depusesse os olhos sobre, não lhe concernia, as palavras não serviam, não se intrincavam em linhas e significados, recomeçava a leitura, enquanto os outros se calavam, aguardando o seu parecer a respeito. Ele gostou daquele momento de paz. E se ausentou.

 A grande sensação que o assaltou foi a da inevitabilidade da morte. Ela o atingira profundamente ao levar seu velho. Aquele com o qual jamais trocara palavras sem significado, mas amizade e carinho, sem levar ou ser levado a qualquer lugar: tudo se resolvia em uma demonstração de afeto humano. Não, todas as palavras que trocaram, obrigatoriamente, tinham que significar algo transcendente que valeria, dali por diante, para assegurar seu futuro, suas responsabilidades, como se ele, pai, fosse o Oráculo de Delfos, sempre disponível para adivinhar seu futuro. Mas, para quê? O futuro é a morte. Talvez tenha sido esse o grande sentido, que em geral os oráculos revelam por palavras interpostas e arrevesadas.  Percebeu as lágrimas descendo sobre as faces, primeiro tímidas, escapando uma a uma da sua prisão [tira os óculos, alega uma conjuntivite, que droga], mas logo depois rebentado, descendo em cascatas brilhantes, salgadas, rios de amargura que afastaram os interlocutores mudos da sua dor [não sem antes pegar o documento que trouxeram para a análise e avisar que alguém passaria depois para lhe fazer uma surpresa]. E se viu sozinho, sem ninguém por perto. Incomensuravelmente só. Não conseguia sequer saber em que lugar estava. Ao redor, tudo limpo, seco, sem som, sem eco, sem céu. Pela primeira vez, estava só. Queria, precisava se lembrar de tudo que não ficara gravado em sua memória, de tudo aquilo que estava submerso nos fatos que relembrava, é era isso o que importava. Nadaria naquelas águas geladas azuis profundas. Era o que de fato possuía relevância em sua vida: encontrar aquilo que estava sob a água, e que geralmente, como nos icebergs, é oitenta, setenta por cento daquele pedaço de gelo que se deixa mostrar. Mas, tampouco é algo que se aprenda ou se mostre com as palavras; é algo anterior a elas. Seu pai, como pálido comparsa? Aquele que se revelou em uma fotografia antiga, roubada de um parente que a guardava em suas gavetas estéreis, mofadas. Festa de natal, em branco-e-preto, anos idos, e o pai com o mesmo olhar longínquo, o mesmo olhar em que se pegava depois de momentos de silêncio e abstração como no começo desta história. E ele entrou naquele cromo, transformou-se em pai. Viveu aquele momento. Cheio de parentes ao redor, irmã, pai, mãe, tios, tias, primos e primas, todos formando uma pirâmide para se enquadrar dentro daquele foco a ser guardado para a posteridade. Todas as relações familiares, transformadas em relações de poder e de interesse. Existia uma segunda agenda, que seria revelada oportunamente, mesclada ao amor filial. Todos desgarrados do seu lugar original e submetidos ao tratamento de choque de obter o sustento, a qualquer custo, e todos os sentimentos foram afastados como móveis velhos a serem encostados contra paredes nuas, sem serventia, para formar um palco onde se encontrariam os pares provisórios que por alguns minutos se harmonizariam em corpos perfeitamente complementares, sem nenhuma fissura que os separasse, apenas dançando a música ambiente, exibindo uma comunhão que mais tarde se revelaria impossível. Ele, o pai, e agora pegando outra foto, olhando o pai afastado do foco principal, observando também a mãe avó, separados pela mesa farta de Natal, um defronte ao outro, rindo exagerados, mostrando a alegria [mera dádiva de estranhos]. Em casa, nunca se via nada igual, apenas silêncio. Um tio contara que o pai avô era muito mulherengo, tinha várias muitas mulheres e pelo menos duas famílias. Para eles: usura de uma saudade. E descobriu, como um raio caído do céu: jamais conheceu o pai. Assim como o pai jamais conhecera o avô. Era filho, neto e bisneto de desconhecidos. Apenas relacionou-se com um corpo, desdenhando de todos os sentimentos filiais. Era um amigo distante, que jamais pôde, quis ou conseguiu participar ativamente da vida daquele que gerou. A mistura entre os sangues resultou em um ser anônimo, estranho, e que para cada um deles sempre era o outro, o estranho, o inatingível. Era esse o significado da orfandade: ela sempre existira, sempre estivera presente. Mesmo quando o corpo tinha vida, ele não tinha sentido. Agora sem vida, o sentido se revelava por inteiro: oco. Essa foi a explicação do vinco invisível que disfarçava coisa alguma. Ele só conseguia conversar com a imagem de seu pai. Com os fatos exteriores captados por uma lente fotográfica. Por isso, quem sabe, ele passava horas e horas vendo álbuns de fotografias de estranhos, milhares de imagens das quais ele jamais conseguira sonhar que significado tinham, apenas as escolhia por uma ruga, um detalhe, uma cor, um olhar. Em sua grande maioria, imagens sem rosto, ou de costas, ou cobertas com os cabelos, sempre em lugares isolados, outras mostrando apenas a parte inferior do corpo, com pés próximos, sempre de corpos diferentes. Se algum clarão de luz havia, era para mostrar a sombra que fazia no chão. Adorava a imagem que vinha do fotógrafo de Gotemburgo.  Mostrava sempre os rostos lanhados, com expressão grave: foi neles que encontrou o mapa do tesouro. Era ali, naquela prega anônima, que estava a grande revelação. Foi filho de um estranho. Órfão desde sempre. Todas as sensações que possuía foram construídas artificialmente para mostrar aos circunstantes que ele foi um filho natural, não adotado, de mesmo sangue e imensa [mas imanente] distância. Ele apenas recebera a herança espiritual; a material, deixara para a mãe. Recebera apenas o rancor, o interesse e a ignorância. Como se fosse um personagem satírico-cômico de um romance, sempre se relacionou com os demais com uma subalternidade abjeta. Com o interesse precípuo de obter as suas vantagens, o seu sustento, raspava diariamente a sua dignidade mostrando a todos a ferida da sua impotência, clamando, silencioso por piedade. Uma mensagem sempre perdida. “Pela minha experiência não podemos, de forma alguma, depender das relações humanas para qualquer recompensa duradoura.” “Só o trabalho realmente satisfaz?” “Sim. Não há muita gente que acrescente algo às nossas vidas.” Um recado enfiado no gargalo de uma garrafa para sempre jogada no mar aberto da insensibilidade. Perdera a vergonha de exibir seu defeito, mostrando-o como se fosse uma virtude que ele já sabia inexistente. Ele fora dotado apenas de paixões inferiores, aquelas para as quais não encontramos razões outras que não o medo, e a fome, e o isolamento: “planos superiores as comandam, e existe nelas um apelo perene que não se cala pela vida inteira; e hoje essa paixão já não parte de mim, e a minha fria existência se encerre naquilo me derrubará por terra um dia, diante da sabedoria celeste.” Ele, o pai e o avô aprenderam apenas a calar diante da ameaça. Paralíticos. Nenhum deles aprendeu a se defender, a socar, a bater no oponente, e ele representou o apogeu da resistência. Sem poder correr, aprendeu a calar, suportar, não demonstrar qualquer emoção, até cansar todos os músculos da face, que dobraram sobre si mesmos, cansados.

Ao olhar adiante, viu um carro aberto se aproximando. Um carro antigo, grande, com três mulheres dentro dele. Elas estavam fantasiadas, mas não como as que vemos no carnaval de tempos em tempos: trajavam roupas fora de época e com uma maquiagem exagerada, também fora de lugar. É dia claro, sol a pino, seus rostos mais pareciam máscaras do que qualquer outra coisa. Entrou para fazer um passeio, e o seu convite era a porta aberta. Nada mais.  Subiram de ré por uma alameda que não lhe permitia ver o lugar. Só quando estacionaram na frente do lugar é que ele percebeu se tratar de uma grande construção, magnífica, larga.

Tudo aqui é tão terno que é como se pisássemos no ar, e não em chão firme.


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