Costume

Gerusa Leal

Escorada na porta olho para a cozinha: tamboretes, mesa e armário de louça enegrecidos pelo tempo, panelas, conchas e peneiras cansados pelo uso suspensos no ar por ganchos fixos no teto, a noite já bem instalada.

Em que momento havia começado a me acostumar?

O menino brinca e sorri, neto em casa de avó. Aparece de vez em quando. Não pede comida, não quebra nada, não fala, não geme nem suspira. Minha filha adorava brincar com ele, que sorria e brincava com ela de igual para igual.

         Acho que por isso tudo, e porque não pede doce nem missa, também fui me acostumando.

Depois de circular para lá e para cá o dia inteiro cuidando da casa, nem pra comer se senta, Da Paz enxuga e guarda a louça do jantar e eu me sento no tamborete ao lado do fogão escutando as dez badaladas no relógio do corredor. Ela tropeça no cachorro deitado ao lado do menino, atento à brincadeira, xinga alguma coisa, pergunta se ainda preciso dela, dá boa noite e some no corredor.

Às vezes chegava a pensar, nesse trajeto sem pouso, que nada me faria mais sair da cama; que nada me restava a não ser esperar pelo nada ao final desse sertão de solo rachado, riachos secos e arbustos retorcidos. Mas havia, sim, havia algo. Ouço a risada infantil e sinto no ar o cheiro do sabonete do banho recém tomado e saboreio esse perfume como se fosse alegria.

O rosto pousado na mão, o cotovelo apoiado na perna, olho o menino girando o pião, que avança pelo piso sem se abalar pelas falhas e tábuas soltas. Mas ele está ainda muito lá adiante. Concentro-me no percurso do pião.

Em qual tábua solta é que foi mesmo que eu parei de girar?

Estamos fazendo companhia um ao outro desde o entardecer. Agora é por volta das dez. Minha filha chega na porta, estira os olhos até o cachorro deitado ao lado do menino e pensa:

– Já devem ser dez horas.

Depois de conferir se a janela está fechada, some no corredor.

Hoje somos só nós duas e minha neta, Gabriela. Não faz muito, éramos quatro, mas fomos nos dispersando até só restarmos nós. Primeiro foi o menino, depois meu marido, pai de Sandra. Da Paz ainda ficou mais um tempo, mas depois também se foi.

O pião bambeia e para a meus pés: não ouso tocá-lo, chuto de volta para o menino, que me sorri e volta a brincar. Continua a sorrir e a brincar até que, de repente, se vai. Eu sei que ele foi ao quarto de Gabriela. Fecho o casaco sobre o peito, esfrego as mãos para aquecê-las.

Não falamos muito uma com a outra. Já faz tempo que se acabou qualquer assunto que importe. Acabou-se com o silêncio que reina na casa. Sei que ela conversaria se eu quisesse, mas não tenho vontade. As palavras não se formam, e quando alguma passa pelo pensamento, não tem força pra mover a língua. É assim. Por isso não falamos muito.

O cachorro abaixa as orelhas, pousa o focinho sobre as patas e começa a cochilar.

Cai uma gota da torneira, fazendo um som surdo na cuba da pia. Outra começa a se formar, fico esperando que engorde e caia também. Mas ela fica lá, pendurada. Não cresce. Não despenca. O vento sopra nuvens que passam transparentes pelo alto da mangueira, e a gota pendurada finalmente cai.

Sandra passa por mim puxando a gola do robe sobre o pescoço, bebe um copo de água recostada no balcão, os olhos perdidos na noite que entra pela janela. Costumava sonhar muito com minha filha no início, sempre criança, brincando com o menino. Não lembro quando parei de sonhar. Acho que foi quando nasceu minha neta, Gabriela.

Sandra também não sonhou mais. Acorda todas as noites na mesma hora, e vem à cozinha beber água.

Ouço o riso de Gabriela, de lá do berço no quartinho pintado de azul, ao lado do quarto da mãe. Sandra também escuta, seu rosto se anima, e a passos largos some outra vez no corredor.


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