Caixa de espelhos

José Carneiro Leão Filho

Não são apenas reflexos de mim o que vejo nestes espelhos. O tempo, a fama perdida, as dores rompidas e a tristeza também refletem nesta caixa. Esta caixa que levo daqui para lá, onde for que me paguem tostão por um pouco de minha antiga canção. Sempre que a abro lembro do meu amor, eterno e terno que nunca me abandonou. Atento dia e noite aos pequenos detalhes está comigo em todos os momentos, como um anjo de guarda a me zelar. Foi ele mesmo que construiu este camarim portátil quando os convites desceram cada vez mais a casas sem luxo e conforto. Nem tenho apresentação hoje. Mesmo assim, pela saudade dele, por querer vê-lo e sentir sua presença, vesti uma roupa de estreia, maquiei-me finamente, preparei o cabelo só para abrir a caixa de espelhos. Percebi sua presença pelo perfume de pinho no ar. No ambiente só as luzes da caixa iluminam meu rosto e os meus pequenos cavalinhos de carrosséis. De todos os tamanhos o brinquedo de parques era a paixão e o trabalho do meu anjo era construí-los, dar-lhes vida e cores. Foi no carrossel da Torre Eiffel, em Paris que nos vimos pela primeira vez. Ele estava lá para entregar novos cavalinhos. Eu estava em minha primeira turnê internacional, um tremendo sucesso. Toda trupe estava animada, comendo crepe e girando na roda a cantar e sorrir. A cada volta o via me observando na cabine de controle. Ele sorriu. Alguém nos apresentou. Nunca mais nos separamos. Nem mesmo depois que seu coração teimou em parar de bater bem em cima de mim, numa das inesquecíveis noites de amor que vivemos. Já se foram doze anos, e continuo aqui a espera do dia que voltaremos a nos encontrar. Estou pronta. Fim da espera. Fecham-se as cortinas.


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