Vivendo de Brisa

Bernardo Morais

No tempo em que Oriomba era desfavorecido de merréis, comercializando sua refeição matutina para adquirir a vespertina, desprovido de pecúnia suficiente quiçá para realizar exercício de evacuação fecal na rodoviária, apaixonou-se por moça rica, bem nascida e bem criada. Só tinha olhos para a donzela, adornada de ouro e pedrarias da cabeça aos pés. Anos antes ela fora eleita hous concours entre mais de quinhentas candidatas, incluindo duas ex misses Venezuela, uma rainha do funk e três sheilas do é o tchan. Perseguiu a pobrezinha de tal forma que durante meses se tornou sua sombra; dia e noite era a sua imagem refletida no espelho. Ela nem deu confiança.

Após longas horas de planejamentos frustrados e quase um litro de cachaça na cabeça, o remédio foi seqüestrá-la de seu elegante bangalô, e a refém seria usada e abusada para o nobre labor de inspirar as sístoles e diástoles do espetacular coração hipertrofiado deste que vos escreve, sem chance de devolução, fosse qual fosse o resgate oferecido, se bem que a moça portava em sua bolsa quantia que Oriomba nunca houvera visto em toda a sua magnífica vida.

Pouco custou para que a nobre inquilina se curvasse ao irresistível carisma do seu recente raptor. E a lua de mel começou imediatamente após a transferência dos pertences da herdeira, que Oriomba prefere não divulgar, por superstição e receio de seqüestro. A duração das efemérides não está bem definida na memória deste narrador, embora haja relatos de terceiros não confiáveis de que houve duas copas do mundo durante as festividades libidinosas. Passada a infindável solenidade íntima, e desejando fornir com víveres o delicado sistema digestivo de sua amada, àquela altura depauperado pela intempérie e por longos períodos de inanição – já que Oriomba decidiu, por si e por ela, desde que foram mortalmente arrebatados pelas flechadas certeiras do cupido, que viveriam somente alimentados pelas benesses oriundas dos generosos mananciais do amor, o bom samaritano pôs-se a cozer em banho maria o marmitex herdado na casa de vizinhos, remanescente da ceia de natal de setenta e sete, da qual Oriomba fora preterido por não possuir ainda o traquejo social suficiente para refrear seus instintos belicosos e seus olhos cheios de lascívia, endereçada esta última a toda e qualquer fêmea que ousasse cruzar seu caminho e aqueles primeiros aos marmanjos embriagados por abundantes doses de destilados baratos, dos que são vendidos em garrafas de plástico nas mercearias freqüentadas por nove entre dez “pés-inchados”.

E como amar ainda era de graça, Oriomba e sua recém eleita patroa deixaram-se envolver pelo relento irresistível do depois, de forma que, adormecidos, não deram atenção à panela de alumínio fundido, adquirida em três parcelas iguais, sem juros, na região da rua padre Belchior, já que o edifício balança-mas-não-cai se encontrava em reforma, obrigando os tradicionais comerciantes a se retirarem das imediações, e a referida panela de dez reais ferveu até extinguir a água e os escassos eflúvios sabor frango cozido que matariam a outra fome de Oriomba. Mais tarde seria possível atestar, senhoras e senhores, a indiscutível qualidade do artefato, que resistiu heroicamente ao fogaréu.

Em chamas, a cozinha do barraco improvisado de Oriomba ardeu durante o pouco tempo necessário para consumir irremediavelmente seus parcos pertences, provavelmente iniciando-se as lufadas ígneas sob o frango com farofa recebido em singelo óbolo de vizinhos benevolentes, até que as labaredas ganharam a sala e finalmente o quarto do casal inebriado pelos eflúvios benzodiazepínicos de Vênus e Baco, se é que este último tinha por hábito o consumo corriqueiro de catuaba selvagem e drink dreher.

Ainda hoje, recostado em elegante divã, guarnecido por peles de animais raros e cercado de troféus diversos, atendido por assessores e mucamas abundantes, enquanto contempla as paredes imaculadas dos salões de seu chateau, Oriomba sente o cheiro de galinha sapecada quando, na companhia da mulher a ele prometida quase meio século atrás, se recorda de sua primeira morada, incendiada pela paixão relapsa – a melhor das paixões, palco inaugural dos amores incipientes nos tempos em que os dois tinham a pressa de condenados à morte, como se amar fosse o único e último remédio para os sofrimentos idos, a derradeira redenção para os pecados cometidos na companhia das pessoas erradas.


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