Paris, meio dia.

Lúcia Bettencourt

É feriado, alguma data cristã que faz os sinos ressoarem gostosamente desde de manhã cedo. Numa torre, quadrada e baixa, os sinos, aparentemente delicados, bimbalham. Noutra, esguia e alta, encimada por um telhado negro semelhante a um chapeu de mago, um sino único e pesado, forte, dá calmas badaladas, seguras – verdadeiras ordens que os fieis não ousam desobedecer.

Subitamente cantos ecoam, ainda distantes, ininteligíveis. Depois, alguma palavras de ordem, distorcidas pela intervenção do megafone.

–        Para Chartres! Avante!

Assustados os pombos se reacomodam nas árvores, para assistir a alguma coisa que a memória de seus ancestrais já lhes deu conhecimento, embora eles mesmos não saibam de que se trata. Uma passeata? Uma procissão? Uma cruzada?

As roupas divertidas e coloridas parecem coisa de festival. Homens e mulheres compartilham cores alegres, bandeiras artesanais. E eles cantam. Em francês, em alemão, em latim. E vão passando, em alas, carregando estandartes de santos. Aqui uma bandeira, ali outra. Aqui uniformizados, ali numa mistura ideal de trajes e fantasias de exploradores.

A moça pára, envolta num xale, e fica observando o desfile. Um padre, jovem, atlético, não resiste ao encanto da jovem, de seus cabelos desalinhados, de seus ombros delicados e friorentos por baixo do xale florido. Ele também pára e a abençoa, com amplos gestos em cruz. A moça fica visivelmente sem jeito. Talvez ela pertença a outra religião, talvez se orgulhe de seu ateísmo, talvez seja apenas tímida, e se envergonhe da atenção publicamente exibida.

O padre segue seu caminho, retomando seu lugar no bloco do qual se destacara. A moça dá meia volta e caminha na direção do parque. Cheio de árvores e flores, o Luxemburgo ostenta suas fontes e estátuas, oferece seus bancos à sombra, ou as cadeiras indisciplinadas ao sol. A moça escolhe uma cadeira ensolarada, para se aquecer.  Pega  o livro de dentro da bolsa e finge que lê.

Passos  rangem sobre a areia, mas ela não levanta os olhos. Talvez esteja lendo, de verdade. Ele se aproxima, mal vestido, olhos febris, cabelos compridos e escuros, as mãos nos bolsos, a jaqueta insuficiente para a temperatura do dia.  Encostado numa árvore, ele fica olhando a leitora, como se a estudasse. Depois, com um graveto, curva-se e desenha na areia o seu perfil sereno, a curva dos cabelos caindo sobre o rosto.  Sorri para seu próprio desenho e começa a tecer, sempre com o graveto, uma guirlanda de flores na areia. Subitamente o graveto se quebra e ele olha, surpreso, à sua volta. A moça já não está mais sentada na cadeira sob o sol. Provavelmente sua pela delicada não agüentou tanta exposição, e ela foi procurar algum lugar mais abrigado.

O rapaz se acocora, faz alguns ajustes no desenho efêmero e também volta a caminhar pelas alamedas floridas, em direção ao bulevar. Mal ele se afasta, uma brisa começa a soprar, iniciando o processo de destruição de sua obra.

O jovem sai do parque e passa por um café, já cheio de turistas. Sua boca saliva com o cheiro do café, dos pães. Ele apressa o passo, para não aumentar as torturas da fome. Mais adiante, numa cadeia de sanduíches,  ele sorri para duas americanas fogosas e de narizes vermelhos de sol. Elas tentam falar com ele em francês, ele tenta falar com elas em inglês. Convidado a sentar, ele tira da mochila um bloco e faz gestos de desenhar. Finalmente eles parecem se entender. O rapaz, ávido, desenha e pensa nos trocados que vai receber em troca.

Sob a árvore, um mendigo maltratado contempla a cena. Ele parece mais velho do que é, com sua barba grisalha, suas roupas imundas, que exalam um cheiro acre e desagradável. Seus cabelos estão longos demais, suas unhas sujas. Ele tosse. Ninguém parece percebê-lo, mas estranhamente, todos o evitam.

Um ponto de ônibus, ao lado da árvore, se enche e se esvazia cartesianamente. O movimento não é muito grande, afinal, é feriado. A rua, de vez em quando, se aquieta, e pode-se, outra vez, escutar os sinos, que continuam suas canções pela cidade.

Uma criança, num carrinho, atira para o mendigo o pão que já não queria mais. Os pais fingem que não vêem, e continuam sua caminhada, seguindo a rua na direção de Cluny. Ao invés de parar no jardim, como era sua intenção, eles seguem para o Sena. O movimento aumenta a cada passo. Turistas formigam, desorientados, entrando e saindo de lojas abertas apesar da data. Tiram fotos, consultam mapas, esquecidos dos punguistas, que estão por toda a parte.

Um casal de idade sorri para a criança, que fecha o rosto, desconfiada. O casal desvia o olhar, aguardam o sinal que lhes permite atravessar e chegar à amurada do rio. Eles contemplam a água que faísca e vão caminhando em direção à Notre Dame, para contemplá-la de longe. Num dia como o de hoje eles sabem que as filas estarão enormes e que não conseguirão entrar.

Quando chegam no parque que emoldura a igreja de St Julien Le Pauvre eles atravessam de volta e procuram um lugar para descansar. Observam a saída da missa, freqüentada por católicos ortodoxos, que saem ainda agitados com as canções que cantaram e os instrumentos exóticos que tocaram. Os velhos sinos de St. Julien começam a tocar, e logo são abafados pelas poderosas badaladas dos sinos de Notre Dame. Entre uma e outra badalada, os sinos das igrejas próximas se encaixam e todo o ar parece vibrar. Aqui os sinos de St. Severin, ali os de St Nicolas. Eles julgam reconhecer até os rendilhados dos sinos da St. Chapelle.

É meio dia em Paris. O casal caminha, sem pressa, para onde vão tomar seu brunch: um pequeno bistrô, cuja dona, uma oriental, deve, neste momento, estar preparando a mesa que reservaram para essa hora. Os sinos se aquietam. As aves voltam para seus galhos, depois da revoada assustada. O sol enfraquece, pois as nuvens, trazidas pela brisa, começam a se espalhar.


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