Meu filho

Daniela Mendes

Ainda perto da minha casa, eu vi um menino de seus oito anos de idade passar por mim. Magrelinho, de bermuda e blusa impecavelmente alva, tênis preto um pouco surrado no pé, cabelinho partido no meio ordenadamente penteado. Trazia nas mãos um maço de papéis. Andar distraído, seus olhos tropeçaram no meu olhar indiscreto. Ele começou a simular uma naturalidade somando aos seus passos uns pulinhos intimadores, como se não tivesse uma mãe em casa que lhe recomendou não dar trela para estranhos. Tinha um cheiro de sabonete barato.

Aquele cabelinho ainda molhado de menino me deu vontade de escová-lo. Quis lhe preparar um delicioso almoço de arroz, feijão, bife e batata frita. Me vi lhe dando um beijo no rosto enquanto segurava seu queixo e recomendava cuidado ao atravessar as ruas. Senti meu peito apertar de medo que o acaso lhe trouxesse algo de ruim. Vi uma meia suja jogada no canto do banheiro, a água de uma piscina se espalhando para fora depois de um berro “Olha mãe”. Eu vi uma cara emburrada diante de um prato de comida. Um nariz escorrendo, um joelho ferido e ele pedindo aflito para eu assoprar. Eu vi uma mãozinha juntando meu cabelo comprido, que agora está curtinho, mas eu bem poderia deixar crescer.

– Moça, você compra um desenho meu?

Quase nunca paro durante meu trajeto. Não pego folhetos, não dou esmolas e atropelo quem oferece crédito. Mas também nunca tive se quer um sentimento maternal.

– Claro!

Depois, sai dali muito satisfeita com meu desenho de más traçadas linhas. Talvez seja assim que se sinta uma caixa de lápis de cor.

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