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Quando se acabam os andares

junho 19, 2011

Dheyne de Souza

Eu nem sei bem como começar.

Talvez se você pudesse

Não, eu não posso. O que tiver que fazer, faço só.

O que tiver de dizer, não

Certo. Vou tentar começar outra vez. Mas para isso eu preciso estar só. Eu preciso estar rente. Esquecer os seus méritos, malogros, redutos, a firma inscrita ilegalmente na sua linguagem e que me fez copiar os ductos mais impuros dos meus não-defeitos. Que agora estou pasma diante da porta, embaçada atrás das escadas, pedestal diante do pó. Que agora a casa é repleta de nós desfeitos os leitos os seios os meios pelos quais depilo a gentileza e me deixo, apenas, corrompida por esse espaço largo no mundo que é o pensamento limpo do passeio imundo. Não costuro mais nicho algum na minha mente, não corro mais do meu império de. Não preciso compreender absolutamente mais nada. Que o mais é piso um salto fino aposento a dor de esquecer durante o, veja, é breve, suspiro e amanhece. Com a cor que tiver de ser tom. Com o som que tiver de ser nota. Com o verbo que tiver de ser nome. Com a língua que puder ser contorno. Com o leve movimento do olho. Quando só anoitece a insônia

Podemos encerrar?

O quê?

Podemos encerrar a conta?

[um silêncio um tanto menos]

Desculpe.

Claro.

Não imaginei que pudesse

[um sorriso um tanto quanto]

Na verdade, não quis

[um simples movimento e aquela xícara de café que estava há bem pouco atravessando a calçada oca do tempo tornou-se uma peça chave e dramática e extrapolada e, por fim, uma peça enfim da história, qualquer que seja ela, ao menos que seja e não só recipiente dócil. Embora]

O que

[um pires]

Mas você está louca? Você pode me explicar o que raios merda caralho é isso?!

Claro que pode.

O quê?

pedir a conta.

[e então o garçom, o pudor, o disfarce, o silêncio, mas não a conta]

Isso está ficando. Veja bem

[enquanto os dedos coitados tentavam desesperadamente calmos desamassar tudo isso pelo modo como o pano da mesa brigava molhado o contato do aço era impossível não rir]

Acho que não precisamos. Acho que isso está estendendo-se além da conta

Peça-a

[amando o “esbugalhamento” do olho era fraque]

A conta.

A conta.

[e quando olhou para o fogo da vela e a mão insinuou-se deveras muito cautelosamente e de uma petulância nem um pouco trêmula como estava a outra mão que afastou o impulso insensato com o impulso sensato e enquanto uma esbanjava delírio a outra estancava loucura dividindo a mesma insanidade no (des)controle quando o garçom pediu que se retirassem]

Quando nem tudo acaba quando se acabam os andares.

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